Estocolmo, Suécia

Economia ou Ecologia? Uma escolha inevitável, segundo Greta Thunberg

10.7.19



O poder da literatura é este: incomodar. Há certos livros que o fazem de forma aterrorizante, e "A Nossa Casa Está a Arder", de Greta Thunberg, é certamente um deles. Incomoda-nos saber que estamos a ignorar um problema grave que, embora não tenha muitas repercussões para nós, certamente não será o caso das gerações futuras - e já nem digo dos nossos bisnetos, pois esta é uma crise que pode estar tão perto ao ponto de atingir diretamente os nossos filhos. 

Este livro, lançado em junho de 2019 pela Editorial Presença*, é tanto uma compilação dos discursos de Greta Thunberg, a menina que ficou conhecida pela greve escolar pelas alterações climáticas, como uma biografia de Malena Ernman e Svante Thunberg, os pais que viram a sua vida dar uma volta de 360º graus quando a sua filha mais velha foi diagnosticada com síndrome de Asperger, transtorno obsessivo-compulsivo e mutismo seletivo. 

Na junção destes dois polos, aparentemente incompatíveis (como é que se junta discursos de ativismo com a história de vida de uma cantora lírica e um ator suecos?!), o leitor recebe a maior wake-up call de sempre. Sem palavras dóceis. Sem falinhas mansas. As palavras inevitáveis acerca de um estilo de vida que está a destruir o planeta e onde todos têm a sua quota parte de culpa. Uns mais do que outros. Mas, ainda assim, todos. Não só percebemos que continuamos a fazer muitas coisas mal, como compreendemos a influência que as alterações climáticas têm nas crianças e adolescentes. Como o facto de os transtornos do foro psíquico, a depressão, os ataques de ansiedade e pânico - todas estas perturbações serem o resultado de uma sociedade que peca pelo excesso.




O livro está dividido por cenas, e não por capítulos - uma clara influência da vida artística dos pais e que lhe dá um toque bem interessante. Na cena 42, intitulada "A parte mais aborrecida", temos um deslumbre daquilo que é o génio de Greta e do que significa este livro para ela e para a sua família. Decidi adicioná-lo aqui, por achar que resume na perfeição o objetivo da obra e da história dos Ernman-Thunberg:
"Diante do computador, o Svante esfrega as mãos na cara com força. Chegaram as provas do livro, para as relermos, e estamos a avaliar o resultado. Volta-se para Greta.
- Ok, dizem que fica um pouco pesado por volta da cena quarenta e um, acham que é mais divertido quando entras tu e a Beata. Podemos inserir alguma coisa?
- Como assim? - Pergunta a Greta, que acabara de selecionar imagens de porcos no matadouro e que espera introduzir na parte em que explica que milhares de milhões de animais vivem a sua curta vida num tapete rolante porque nós, os homens, nos arrogámos o direito de industrializar a própria vida.
- Ou seja, podemos escrever alguma coisa sobre vocês?
- Não - respondeu secamente. - Senão vai ser só um monte de tralha pessoal. O esgotamento da mãe e as coisas que todos gostamos de ler sobre as celebridades. Isto é um livro sobre o clima e tem de ser aborrecido. Têm de o aceitar tal como é."

O planeta está com febre; será que ainda vamos a tempo de a baixar?


Ontem, à conversa com os meus amigos, resolvi falar acerca do livro que andava a ler. Da história de Greta, que é minimamente conhecida por causa da greve pelo ambiente. E disse que uma das coisas que a família abdicou de fazer pelo ambiente foi deixar de andar de avião. Os aviões, com os seus combustíveis bombásticos, cujas emissões infiltram a atmosfera de forma catastrófica, são das principais causas para a quantidade de dióxido de carbono que temos atualmente no planeta. E que, para conseguirmos baixar minimamente os seus níveis, temos todos que deixar de andar de avião.

A primeira resposta que recebi foi "Eu não vou deixar de andar de avião e abdicar do meu sonho de viajar por causa disso". Assim, tão claro como água. E eu sorri porque... Pensava exatamente da mesma forma. Mas senti-me irritada, fustigada com aquela declaração. Porque, ao partilhar dela, sentia-me objeto de exemplo na teoria de Greta de que as pessoas não estão dispostas a mudar pelo nosso planeta, porque estamos sempre à espera que alguma coisa nos salve. 

As palavras de Greta e, consequentemente, da sua mãe, principal narradora desta história de ativismo pelo ambiente, fazem-nos repensar a forma como lidamos com as alterações climáticas. Quanto muito, oferecem-nos um sentimento de culpa por não estarmos a fazer o suficiente pela nossa casa, pelo nosso planeta. A analogia da casa a arder é bastante explícita: quando a nossa casa arde, não esperamos pela ajuda dos bombeiros... Somos nós que começamos a tentar salvar o que é indubitavelmente nosso.

Por último, "A Nossa Casa Está a Arder" termina com um ponto de interrogação. Será que ainda vamos a tempo de baixar essa febre fatal? Será que a humanidade está disposta a abdicar da superficialidade e consumo excessivo para a sobrevivência futura?

A resposta, ainda assim, é muito simples: entre a economia ou a ecologia do nosso planeta, a escolha deveria ser é inevitável.



ilustração: @ka.graphicdesign

* Este livro foi uma oferta da Editorial Presença, mas todas as opiniões aqui apresentadas são minhas e absolutamente honestas. 

Adquirir aqui o livro:


SEGUE-ME NAS REDES SOCIAIS

2 comentários

  1. Gosto de livros que incomodam, que nos deixam em alvoroço por dentro, porque isso significa que nos fazem pensar e questionar sobre aquilo que conhecemos e garantimos como certo.
    Tenho imensa curiosidade em relação a esta obra!

    ResponderEliminar
  2. Estou curiosa para ler este livro :)

    ResponderEliminar