Ode à geração millennial

23.6.19



Em 2017, no final do meu primeiro ano de mestrado em Jornalismo, escrevi este texto sobre a frustração em viver num país que mal consegue cativar nas universidades e faculdades nacionais. Depois disso, passei por uma avalanche de situações que parecem oriundas de uma década, e não de dois anos. Admiti que tinha depressão, ao mesmo tempo que escrevia uma tese para a qual não tinha interesse e que parecia uma espécie de tortura diária na minha vida. Mal sabia eu que, naquele momento, ainda estava muito longe do grande objetivo sinuoso e esgotante de arranjar trabalho. 

Quatro meses após começar a trabalhar, começo a ganhar uma bagagem, quase irrelevante, mas já bem viva no meu quotidiano. É daquelas que cabem nas gavetas superiores dos autocarros, uma que começa, lentamente, a ganhar recheio até lhe ser impossível outro lugar se não na bagageira inferior. Tenho uma opinião que, embora não seja totalmente discordante da que tinha em 2017, é talvez mais madura. E posso dizer que, embora continue chateada com o meu país, acabo por ter algo mais a acrescentar - há uma grande injustiça com a nossa, com a minha geração.





"A geração Y é a criança que passa anos a acreditar no Pai Natal, para chegar a uma certa idade, depois de anos com toda a família a fingir que ele come sempre o raio das bolachas, e cair-lhe tudo aos pés quando passa a saber que o Pai Natal é na verdade o Tio Manuel do lado do tio-avô paterno. Quando a geração Y se encontra perdida no meio de tantos sonhos destroçados, procura um certo tipo de apoio em sítios como a escola ou a universidade, cujas experiências são as mais indicadas para ajudar alguém que, mesmo perante as dificuldades do dia-a-dia, continua a procurar uma forma de ser bem-sucedido na vida. E, de repente, também esse apoio lhe falha. O que fazer a seguir?" in The Quest of Succeeding in Life, 2017

A geração Y, também conhecida como geração millennial, vem sempre atrelada de uma série de adjetivos pejorativos. Cambada de preguiçosos, criançinhas que querem tudo de mão beijada, que não estão dispostos a gastar do seu suor e a trabalhar arduamente para conquistarem os seus objetivos, etc. Nem sequer tenho paciência para ir buscar os estudos - e os comentários das redes sociais - que comprovam isto, mas sei que todos os jovens e adultos, pertencentes a esta geração, sabem do que estou a falar. Estamos sempre associados à tecnologia, porque temos a ajuda da Internet e dos telemóveis para chegar a todo o lado, só queremos saber do politicamente correto e de "assuntos de merda" como direitos LGBTQ+, o trabalho dos nossos sonhos e, o choque, problemas ambientais.

Em suma, e aos olhos deste universo geracional que nos rodeia, estamos condenados a um grande abre-olhos quando formos mais velhos, mais sábios e mais, sei lá, tudo.

MILLENNIALS: EGOÍSTAS OU EM CONSTANTE ALERTA?


Todos os dias levanto-me às 5h da manhã para apanhar transportes públicos até Lisboa. Deixei de sair à noite (tirando os fins-de-semana), abdiquei do ocasional café a meio da semana, das visitas do meu namorado que vive a 30km da minha vila e que já eram escassas antigamente por causa da distância. Abdiquei da segurança de um trabalho estável a favor de um trabalho de sonho. Todos os dias sinto que as minhas olheiras são maiores e mais negras, acompanhando o meu cansaço que não vem propriamente da falta de sono - durmo 7h, mais coisa, menos coisa - mas dos transportes públicos que me desgastam a cada dia que passa. 

Quando as pessoas sabem que faço quatro horas de autocarro todos os dias, vem a primeira pergunta automática, tipo comboio-desastre: "Porque é que não estás a viver em Lisboa?", ao que segue um revirar de olhos cansado da minha parte: "Porque não vou pagar para trabalhar". Porque Portugal continua uma merda no que diz respeito a arranjar casa, principalmente nas grandes cidades. Porque não vou pagar 350€ sem despesas por um quarto que nem sequer tem condições e onde tenho que viver atulhada com mais seis ou sete pessoas. 

A minha melhor amiga é arqueóloga. Trabalha a recibos verdes, como a grande maioria dos portugueses que, atualmente, têm de trabalhar através dessa vergonha de sistema de pagamento. Como tem de se sujeitar àquilo que lhe aparece, faz grandes viagens, para longe de casa. Já perdi a conta dos lugares por onde passou, sendo o mais recente um trabalho em Alcoutim onde tinha que fazer dezenas de quilómetros todos os dias entre o espaço onde vivia e o sítio onde escavava. No meio de uma serra onde nem havia rede. 

O meu melhor amigo tirou um curso de tradução para acabar a trabalhar num hipermercado. Essa é, aliás, a grande moda dos dias de hoje: tirar um curso de ensino superior para, no fim, terminar em campos de trabalho saturados que levam a que se procurem alternativas em áreas que nada têm que ver connosco, com os nossos sonhos, com aquilo em que somos bons e com que nos identificamos. 

Conheço pessoas que não têm a possibilidade de fazer viagens de transportes públicos como eu, acabando por não poupar na renda de casa. Conheço pessoas que fizeram 400km para vir trabalhar para a metrópole porque, na zona onde vivem, ofertas de emprego são praticamente inexistentes. Têm de pagar uma renda de casa exorbitante, nos subúrbios. E a resposta que essas pessoas dão? A mesma que eu dou muitas vezes, a quem insiste comigo? 

Temos que começar por algum lado. 


A verdade é que, quando olho para histórias semelhantes à minha ou dos meus amigos, nem sequer entendo porque é que generalizam uma geração por meia dúzia de anormais que existem desde sempre, independentemente do ano em que nasceram. Pessoas que são preguiçosas e que não querem trabalhar vão continuar a haver, quer tenham nascido em 1950 ou em 2050.

É quando eu penso naquilo que temos de lidar, nós e gerações futuras, que fico bem lixada com tamanha injustiça.

A minha família investiu tudo aquilo que tinha e podia para a minha educação, e eu, neste momento, não tenho possibilidades de comprar ou alugar uma habitação e, dessa forma, tornar-me completamente independente de quem me criou e ajudou. A grande maioria dos jovens, hoje em dia, não têm forma de sair de casa porque não têm condições para tal - e não porque se recusam a sair porque é melhor chular os pais. As alternativas mais apelativas e atraentes são os créditos, as sanguessugas dos empréstimos que nos levam a ficar endividados e, consecutivamente, a endividar os nossos filhos. Às vezes, é impossível não nos sentirmos encurralados num país com poucas saídas.

Penso que este texto serve, acima de tudo, como desabafo. Mas também funciona como uma ode a pessoas como nós que, todos os dias, procuram sobreviver.

Nem sequer quero ir por uma questão de política; isto não é um atentado aos governos anteriores ou aos que hão-de vir. É sim, uma observação, uma reflexão sobre jovens que, com menos de 30 anos, lutam diariamente para percorrer metros até aos quilómetros que os seus pais, avós e bisavós percorreram há trinta ou cinquenta anos atrás.

É um lembrete de que continuamos aqui, que não somos egoístas, mas sim sobreviventes.

Por último, deixo-vos com esta thread que me apareceu ontem no Instagram e que faz todo o sentido para aquilo que acabei de escrever.




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3 comentários

  1. Gostei muito deste post. Também me incomoda ler certos editoriais ou crónicas em jornais de referência a criticar os "millenials". Primeiro, porque não podemos tomar a parte pelo todo e assumir que, só porque conhecemos 2 ou 3 que eram idiotas, isso não quer dizer que toda a geração seja assim. Segundo, porque o que vejo não é nada disso. O que vejo é uma geração que estudou muito e trabalhou muito para depois acabar a receber 700 ou 800 euros em Lisboa e a fazer muito mais de 40 horas/semana, e ter de continuar a viver em casa dos pais porque, como referes com esse salário só mesmo um quarto na cave... Além disso, não sei como será nas outras áreas mas na minha a perspetiva é de um dia vir a receber 1000, quem sabe 1200 (o sonho) mas não mais do que isso...

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  2. Excluindo todos os males nesta jornada, uma coisa que me tira do sério é mesmo a generalização. Porque esta geração millennial que tanto criticam, tem que suportar diversas adversidades, mas disso não dá jeito falar. É muito melhor apontar defeitos, em vez de "perderem" tempo a ver de onde vem o problema para serem criadas soluções.
    Toda a minha vida quis ser educadora de infância e, felizmente, consegui tirar o curso que também ambicionava. Se estou a trabalhar na área? Não. Porque tudo exige experiência, mas ninguém dá oportunidade aos jovens para criarem essa mesma experiência. Como é que é suposto fazer a minha vida assim? Mas não desistimos, continuamos na luta, porque havemos de dar a volta a isto.
    Só gostava é que existisse um pouco mais de respeito e muito menos críticas injustificadas.

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  3. O hábito de falar mal da geração mais jovem não é novo, mas concordo com o enxovalhar dos millenials perdura há já muito tempo. Eu admiro muito esta geração, pois, tal como apontas no teu texto, é fácil esquecermo-nos da precariedade que é ter estudos e trabalhar para sobreviver.

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