5 livros sobre mulheres e para mulheres

4.3.19



À semelhança do mês passado, onde sugeri 5 romances para entrarmos no espírito apaixonante de Fevereiro, decidi trazer-vos 5 livros de ficção que eu adorei e que falam sobre mulheres. Não sendo necessariamente livros feministas, são muito mais grandes histórias que me marcaram de alguma forma devido à personagem ou personagens centrais, e que nos dizem sempre alguma coisa por sermos mulheres e nos identificarmos com o que é escrito. Paralelamente, também são obras escritas por mulheres, pelo que se não sabem ainda o que pretendem ler este mês para o The Bibliophile Club, aqui ficam estas 5 sugestões que eu adorei



1. Jane Eyre (1847), por Charlotte Brontë

As irmãs Brontë são figuras incontornáveis da literatura inglesa do século XIX. Infelizmente, ainda não li nada de Emily e Anne Brontë, estando O Monte dos Vendavais (1847) a ganhar poeira nas minhas estantes, mas o mesmo não se pode dizer deste clássico um tanto obscuro da irmã Charlotte.

Jane Eyre é a personagem principal deste romance. Depois de uma infância e adolescência marcadas pelo orfanato rígido e severo, a jovem arranja emprego como professora e ama de Adèle, uma criança que está sob a custódia de Mr. Rochester. É impossível não se apaixonarem um pelo outro, atraídos pelas suas personalidades tão opostas. Thornfield Hall, no entanto, esconde um segredo obscuro e terrível que pode pôr em causa a sua relação com Rochester e até mesmo a própria vida de Jane.

Este romance acompanha o percurso de vida de Jane Eyre desde o início, inclusive antes de ir para o orfanato. É o exemplo de uma mulher solitária, muito sensível e que viveu grande parte da sua vida sem conseguir contar com ninguém se não ela própria. Até mesmo na sua relação com Rochester, conseguimos compreender a sua força, a personalidade de alguém que foi muito pisada e que agora, em vida adulta, não o admite de ninguém. Escusado será dizer que, para um livro escrito em 1800, é uma obra muito à frente do seu tempo e única, não só pelos motivos acima mencionados, mas pelas características próximas de suspense e da literatura gótica.

Português: Wook*
Inglês: Book Depository*


2. A Tenda Vermelha (1997), por Anita Diamant


Este livro jamais estaria nas minhas leituras se não fosse pela minha prima que vive nos Estados Unidos. Conhecemo-nos pela primeira vez em 2016 e como ela sabia da minha paixão pela literatura, trouxe-me este livro por ser um dos seus favoritos e com um grande significado para ela. É ficção histórica e com uma componente religiosa, mas com um pequeno twist, já que explora o papel da mulher bíblica numa perspectiva feminista, pois os escritos da Bíblia, por serem narrados por homens, não têm grande foco no sexo oposto. Assim, misturando factos reais com outros imaginados, a autora aborda o significado de ser mulher há milhares de anos atrás. 

A narradora é Dinah, filha de Leah, uma das quatro mulheres de Jacob. Esta criança explica como é ser uma filha com muitas mães e como funciona a relação de Jacob com as suas mulheres, mas detalha igualmente outros pormenores, desde o papel que cada mãe desempenha na tribo, o período passado na tenda vermelha, onde descreve como sendo o mais feliz, por ser o local onde as mulheres passam os dias quando estão menstruadas, entre outros. A segunda parte da história continua com Dinah na fase adulta, nos seus relacionamentos e o afastamento gradual e chocante com a família. 

Em suma, é uma história sobre mulheres, escrita por uma mulher e para mulheres. É muito interessante ver uma perspectiva ancestral da forma como o sexo feminino funcionava em sociedade, da forma como as suas funções estavam relacionadas com ser parteiras, fazer refeições, criação de remédios e de ervas, etc. Não é mais do que sentir a realidade daquilo que acontecia antigamente, mas sempre de um ponto de vista quase matriarcal. O que eu achei que seria inicialmente estranho acabou por ser extremamente interessante. Por isso mesmo, recomendo vivamente. 

Português: Esgotado ou indisponível 😒 
Inglês: Book Depository


3. Rapariga com o Brinco de Pérola (1999), por Tracy Chevalier


Li este livro quando tinha 16 anos, se tanto. Na altura ficou um favorito, depois de me apaixonar com a versão cinematográfica que originou a minha eterna crush pelo Colin Firth (há lá britânico mais lindo do que este?!). Estava naquela fase em que queria descobrir projectos artísticos, desde filmes que explorassem a criatividade, até livros que abordassem clássicos da nossa cultura, pois queria devorar tudo. Esta obra de Tracy Chevalier é feita a partir da perspectiva da jovem que deu origem ao quadro de Vermeer. 

Griet é vista através da simplicidade que acompanha uma empregada doméstica, até ao dia em que Johannes Vermeer ganha interesse por ela. Uma relação de proximidade e intimidade inicia-se entre ambos, seguindo quase automaticamente para uma de professor e assistente. Não sendo propriamente uma história com um sinal feliz, é uma que descreve a forma como uma criada se transformou no centro da vida de um dos maiores pintores do séc. XVII, sendo inclusive a modelo para a sua obra mais conhecida. 

Português: Esgotado ou indisponível. No entanto, são capazes de encontrar à venda no OLX ou noutros em segunda mão, pois o meu exemplar pertence à Biblioteca Sábado, uma colecção feita há alguns anos pela revista Sábado e que eu vejo muitas vezes em alfarrabistas.
Inglês: Book Depository
(Recomendo também a verem o filme, está absolutamente maravilhoso e já perdi a conta de vezes que o vi). 


4. O Quarto de Jack (2010), por Emma Donoghue


Este livro é narrado através da perspectiva de uma criança, Jack. É chocante, um tanto revoltante e mexe connosco. Através da obra de Donoghue passamos para a sociedade contemporânea nesta lista, onde Jack nos fala sobre a sua vida com a mãe no Quarto, o sítio onde nasceu, cresceu e onde é mais feliz. Para ele, não há nada mais no mundo se não aquele quarto minúsculo, arranjando brinquedos e fontes de entretenimento da melhor forma que pode. Mas é uma criança mais ou menos feliz - porque nunca soube mais do que aquilo. 

Para a Mãe, no entanto, aquele Quarto é uma prisão. Ao longo do percurso de Jack, ficamos a entender que ela foi raptada há sete anos atrás, enclausurada a um espaço fechado enquanto o mundo continua a viver à sua volta. Este livro demonstra a força e resiliência de uma mulher que, mesmo passados sete anos, não desiste da sua liberdade, principalmente com a noção de que tem um filho e que ele não pode continuar ali fechado durante muito mais tempo. A voz inocente de Jack é reconfortante e desoladora ao mesmo tempo.

Quando pensamos na actualidade, na forma como as mulheres são violadas, raptadas, assassinadas e usadas como objectos sexuais, é impossível ficar indiferente a esta história. Esta é a história de uma mulher que teve um final diferente de muitas outras, mas que jamais consegue esquecer o Quarto e aquilo que ele representou para ela. O livro acompanha precisamente esse processo e, por isso, merece a nossa atenção.

Português: Wook
Inglês: Book Depository


5. Educated (2018), por Tara Westover


Por último, mas não menos importante. Andava há imenso tempo para querer falar sobre este livro aqui no blogue, mas nunca sabia muito bem como o fazer. Sinto que tudo o que eu disser sobre ele não é suficiente, tal não é a sua importância para mim. Ao contrário dos outros, esta obra é uma biografia que conta a história da escritora, uma história marcada pela isolação e pela procura incessável que certos indivíduos têm por aprender mais, pela educação.

Tara viveu os seus primeiros anos de vida nas montanhas rurais de Idaho. Ao contrário dos primeiros três irmãos, nunca teve um certificado de nascimento e, por isso, não só não sabe quando é o seu aniversário, como, tecnicamente, é como se não existisse. Pertencente a uma família Mórmon, seguem um movimento denominado sobrevivencialismo, onde um grupo de pessoas vive a sua vida preparando-se para uma catástrofe de qualquer género, como um apocalipse ou algo originado por causas naturais. O seu pai acredita plenamente que o Governo conspira contra si e contra a sua família, o que fez com que os seus filhos fossem retirados da escola e "educados" em casa, entre outros acontecimentos absolutamente inacreditáveis e que mostram uma vida de isolamento e desconfiança constantes.

Ao contrário da maioria dos seus irmãos, Tara decide estudar. Contra a vontade dos pais, inscreve-se no college americano e acaba com um doutoramento em História. A biografia acaba por ser o percurso dela, a transformação de uma criança que segue cegamente o seu pai e as suas crenças para uma adulta que consegue ver para lá das montanhas onde sempre cresceu. É chocante, arrepiante e um testemunho incrível de uma mulher que lutou por si mesma. Sem querer dar spoilers, existem certas partes de violência e agressão no seio familiar que são um exemplo claro de todas as vítimas que não têm em voz, pois é a sua palavra contra a do agressor. Por isso tudo e muito, muito mais, termino estas sugestões com este livro arrebatador que se tornou num dos meus favoritos de 2019.


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Espero que tenham gostado destas sugestões. Vamos celebrar a mulher na literatura? ❤



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17 comentários

  1. A Tenda Vermelha li há muitos anos, e até hoje me lembro da tenda da menstruação.

    A Rapariga do Brinco de Pérola, vi o filme e amei, o livro nunca li mas ofereci à minha sogra.

    Jane Eyre também só vi o filme e adorei.

    Os outros dois já estão na minha lista!!! Obrigada !


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    1. O livro d'"A Tenda Vermelha" é, de facto, marcante. Não é que seja uma obra extraordinária, mas acho que enquanto mulheres é impossível não presenciarmos de alguma forma as descrições do livro e a forma como viviam a menstruação. O filme com o Colin Firth é a minha perdição, foi aí que começou a minha crush e mantém-se até aos dias de hoje, ahahahah. Pessoalmente, não gostei muito da adaptação de Jane Eyre. Não gosto muito da actriz principal, e acho que retiraram muitas coisas da obra literária que eram essenciais para o filme.

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  2. Nunca li o livro «Rapariga com o Brinco de Pérola» mas adoro o quadro

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    1. Eu também! O livro está muito bom, na minha opinião, mas o filme também vale muito a pena por causa das cenas onde se fazem as cores e Vermeer estuda as suas pinturas com a empregada. Só por si, a adaptação é também uma verdadeira obra artística :)

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  3. O livro da Tracey Chevalier, que li com mais uns dez anos do que tu, não me encantou - longe disso. Curiosamente, na semana passada fui ver o quadro, e gostei muito mais do que estava à espera :)

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    1. Talvez hoje se lesse o livro não ficaria tão encantada como fiquei na altura. Mas como descrevi na publicação, eu andava viciada em devorar tudo o que envolvesse arte, criatividade e que mais - talvez por isso tanto o livro como o filme me tenham marcado tanto! O quadro ao vivo deve ser absolutamente encantador. Que inveja, daquela da boa! :)

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    2. Compreendo - nesse aspecto o livro é muito bom, mas a ideia de "inventar" um passado para uma pessoa real faz-me alguma confusão! Recomendo a visita a Haia e a Delft, tendo tu gostado tanto! Fiz um post ontem que fala um pouco da minha experiência na Holanda, se tiveres curiosidade: https://barbarareviewsbooks.blogspot.com/2019/03/holanda-roteiro-literario.html

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  4. Ainda não li nenhum desses livros, mas deixaste-me muito curiosa com os dois primeiros!

    Beijinhos,
    http://averamarques.blogspot.com

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    1. Se alguma vez adquirires um ou ambos, espero que gostes :)

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  5. Tenho particular interesse em relação aos dois últimos! Já há algum tempo que os tenho debaixo de olho *-*

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    1. São absolutamente geniais. O "Educated", então, acho que vai ficar para sempre nos meus favoritos. É chocante, marcante, apaixonante... Enfim. Nem sei bem descrever aquele livro e já o li há umas semanas.

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  6. Fiquei bastante curiosa para ler O Quarto de Jack. Vou tentar ler o livro, brevemente!

    Beijinhos

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    1. É mesmo muito bom! Por vezes pode ser um bocadinho frustrante por causa do narrador ser uma criança, mas no fundo é muito emocionante e toca-nos mesmo.

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  7. O livro que estou a ler está a tua lista, é o Jane Eyre. No entanto, está a ser uma leitura beeeem lenta e não muito agradável. Parece que não desenrola a narrativa.
    Quero muito ler o Quarto de Jack e a Rapariga com o Brinco de Pérola!

    My Own Anatomy 💫

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    1. Acho que os primeiros capítulos são um bocado lentos. A parte toda da descrição da infância e adolescência de Jane Eyre podem parecer maçudos, mas depois acho que vale a pena. Se ainda assim não gostares, obviamente que nem todos os livros são para toda a gente. No entanto, pelo menos para mim, considero um clássico muito bonito :)

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  8. Dos livros que mencionas já li o da Tracy Chevalier e o Jane Eyre. Adoro o Monte dos Vendavais (muito mais que o Jane Eyre para ser sincera). Estou, neste momento, a ler o Educated e a adorar :)

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  9. Muito obrigada pelas sugestões! Ainda não sei o que ler para este mês, por isso, esta tua lista veio mesmo a calhar. Fiquei particularmente interessada no último livro. Mesmo apenas com um resumo, fiquei com a sensação que, depois de ser lido, temos de respirar bem fundo.

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