16.11.18

Sobre a injustiça feita à ficção young adult e o porquê de ser tão importante para nós



Sempre me considerei parte da geração de transição. Os telefones já existiam, sim, mas a comunicação rápida, à distância de uma chamada ou de uma mensagem de texto, ainda era algo longe de acontecer. Cresci num ambiente sem o parasita digital, mas também fui descobrindo aos poucos o que era a Internet, nomeadamente através da rede DSL, onde cada chamada significava ligação perdida e mensagens muito rápidas para os meus amigos a dizer "Estão a ligar cá para casa, já volto". 

Paralelamente a isto, também me considero pertencente à geração de transição no que toca à literatura. Quando era criança não se falava sobre livros young adult com a mesma força e popularidade com que se fala hoje. Actualmente, a ficção para jovens está para os adolescentes de uma maneira que nunca esteve disponível para mim, com essa idade. Acaba por ser daqueles desenvolvimentos que não são só imensamente apreciados, mas que só agora, com a sua proliferação, entendemos o quanto precisávamos deles.


Já ando há imenso tempo a querer abordar a importância do género young adult aqui no blogue. Não só é dos meus géneros favoritos, mas é também dos menos entendidos pela sociedade literária - e dos mais gozados, também. Uma rápida pesquisa no Google com as palavras "young adult fiction sucks"  ou "young adult fiction is bad" leva-nos imediatamente para fóruns e textos de opinião acerca dos enredos repetitivos e iguais, das imitações rascas de Harry Potter, da era "craptastic" de Twilight, Divergent e Hunger Games, bem como um artigo de 2014 cujo título é "Attention Young Adult Fans: Grow Up" o que, só por si, já é suficientemente explicativo sem necessitar de ler o texto. Texto esse que eu li, ainda assim, e adorei, pois sugere que crianças e jovens-adultos são seres inferiores e menos inteligentes, incapazes de entender leituras mais complexas.

O género young adult é inferiorizado constantemente já que, alegadamente, não traz nada de novo para a mesa. Enquanto crianças e adolescentes não têm inteligência para assuntos mais complexos, os adultos que lêem este género trocam aquilo que é definido como "boa literatura para adultos" por "dramas de adolescente piegas" (traduzido por mim, outro artigo maravilhoso escrito por Ruth Graham que podem ler aqui), como se as pessoas não tivessem a capacidade para, sei lá, ler ambos. 🤷‍ Todos estes argumentos são apenas a pequena ponta de um iceberg irritante na minha vida de leitora young adult, que acaba por não só ser insultuoso como também incorrecto.



A ficção young adult é uma porta aberta para um mundo inteiro. Pode falar apenas de um romance adolescente que corre mal. Mas também pode ser um livro que compele mais hábitos de leituras. 


Já escrevi aqui sobre o desprezo intelectual que senti na universidade por causa dos meus gostos literários. Mas é precisamente por ser licenciada em Línguas e Literaturas que vos posso dizer com certeza que não é por ler ficção young adult que sou menos competente a ler "ficção boa", ou o que quer que isso signifique para certas pessoas. Se querem competir e ver quem tem a ferramenta maior 🙄, também já li Tolstoy, Shakespeare, Cervantes, Faulkner, Orwell, Kafka, García Márquez, Proust... Sei lá. E continuo a ser a mesma leitora que lê John Green, Veronica Roth, Rainbow Rowell ou Cassandra Clare, entre outros. A minha preferência por livros young adult não invalida ou inferioriza o meu gosto por literatura estereotipada como "boa". 
What do these critics and academics even mean when they call adult literature serious? This descriptor gets thrown around but never defined. Were I to make the same reductive assessment of all adult literature that the genre’s critics make of YA fiction, then the serious novel would be about a middle-aged person struggling with career collapse and sexual frustration. (via The Guardian. Damien Walker responde ao artigo de Ruth Graham, entre outros. Muito interessante e importante também).
O que me interessa aqui afirmar, contudo, é o poder que a literatura young adult consegue ter em cada um de nós. Foram os livros dentro deste género literário que me inseriram ainda mais na literatura. Comecei com The Mortal Instruments, The Hunger Games e Divergent, tudo sagas que combinavam heroínas adolescentes com mundos de fantasia ou ficção científica. Quando dei por mim, andava a procurar na biblioteca de casa Eça de Queirós, William Shakespeare, Jane Austen e afins. Mais tarde, acabei por estudar Literatura na universidade, uma bagagem que carrego comigo, seja a literatura contemporânea ou clássica, os romances históricos, os young adult, etc. Como eu, são milhares as pessoas que se interessaram por um género e sentiram vontade de descobrir outro. Ou não. Já disse anteriormente que o que importa é ler, acima de tudo. 

Mas se os pseudo-intelectuais quiserem prosseguir com o intuito da mensagem, posso dizer que até mesmo em livros young adult continua a ser relevante (e, por vezes, reformador). The Hate U Give (2017) é o mais recente bestseller que explora a brutalidade policial nos Estados Unidos da América e que este ano virou filme. The Hunger Games (2008-2010) transporta-nos para um mundo distópico de opressão política e económica. Turtles All the Way Down (2017) explica-nos em primeira mão o que é sofrer com vários distúrbios, seja ansiedade ou transtornos obsessivo-compulsivos. A saga de Harry Potter, dentro da complexidade de situações que J. K. Rowling criou, aborda assuntos como corrupção política e censura de informação. 

Será, contudo, que são histórias bem construídas e correctas do ponto de vista ético, moral ou que mais? Nem todas. Mas todas elas distribuem uma mensagem ao leitor: que o mundo não é assim tão bonito quanto a nossa inocência o permite, mas que todos nós temos uma espécie de pegada onde podemos fazer a diferença. Seja a destruir forças maléficas. Seja a construir forças interiores para nos melhorarmos a nós mesmos.

Acima de tudo, o género young adult é importante porque está a fazer com que as massas mais jovens voltem a ler. Mas a verdade é que acaba por ser um tipo de ficção onde todos nós nos sentimos representados. Já todos fomos crianças. Já todos fomos adolescentes. E sim, eu pareço ter 60 anos, relembrando os bons velhos tempos da minha mocidade, mas é um facto que todos nos conseguimos relacionar com a perspectiva de um jovem, pois todos nós passámos (ou estamos a passar) por essa fase. Novamente volto a fazer a grande questão: não será mais importante os jovens estarem a voltar a ler? Ou é mais importante ser "intelectual", mostrar superioridade e o quão erradas são certas obras porque oh-meu-deus-não-gosto-de-romances-de-putos-e-as-suas-crises-existenciais?

Pensem nisso.



6 comentários

  1. As nossas preferências literárias podem ser completamente diferentes, pelos mais variados motivos, mas isso não nos dá qualquer direito de diminuir as restantes. Irrita-me, profundamente, que inferiorizem a competência intelectual de alguém pelos seus gostos, não faz qualquer sentido. Porque a mesma pessoa pode ler obras mais ligeiras, digamos assim, e obras mais complexas, não tem que se limitar a uma opção só porque alguém as considera incompatíveis. Porque não o são, de todo. Acho que cada leitura tem o seu momento e não é por se preferir um estilo a outro que conseguimos interpretar melhor ou pior os outros registos.
    Sinto que esta questão se prende muito com a necessidade de compartimentar as pessoas. Se gostas disto, não podes gostar daquilo. Quem disse? Enquanto houver esta competição e comparação parva, estes problemas continuarão a surgir.

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    1. Concordo plenamente. Mas acho que fazem uma grande injustiça a este género quando o inferiorizam desta forma. Está mais do que salientado em várias obras - muito para além das que referi nesta publicação - o quão pedagógicos certos livros de young adult podem ser. Já para não falar da representação que sentimos ao ler certas histórias juvenis que nos tocam particularmente.

      Infelizmente, tenho noção que esta situação de "compartimentar as pessoas", como tão bem referes, vai continuar sempre. Vem da necessidade de inferiorizar e de simultaneamente um indivíduo sentir-se bem consigo mesmo, percebendo que é mais do que os outros. Acho que todos nós temos um pouco de egocentrismo em nós, mas em pessoas como estas, chega a ultrapassar os limites e passa a ser só arrogância. Enfim.

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  2. Adorei o post. Aliás, já tinha pensado fazer qualquer coisa do género lá no blog também.
    A mim o que me irrita de facto é acharem que boa literatura tem que ser adulta e, cá em Portugal, também se tem muito a mania que o que é português e pseudo-intelectualóide é que é bom. Há bom e mau em todo o lado. Nem toda a literatura YA é boa, assim como nem toda a literatura portuguesa ou adulta, no geral, é boa. E o bom da literatura é isso mesmo, existir diversidade para todos os gostos. Afinal, quem é que tem poder para decidir o que é bom ou mau? O que é bom para mim, pode não ser para ti ou para outra pessoa qualquer. Por isso, concordo contigo. O que interessa é ler. Tenho quase 30 anos e orgulho-me de ler maioritariamente YA. Na minha mentalidade, não tenho que me obrigar a ler clássicos só porque a sociedade acha que esses livros é que são bons. Na minha mentalidade, podem ser bons, sim senhora, mas ainda sou jovem e cheia de energia, gosto de ler histórias também cheias de energia. Não tenho tempo, nem paciência para levar secas. Tenho os clássicos cá em casa e certamente que os irei ler na minha reforma :D
    Os livros YA transmitem mensagens tão importantes como alguns filmes infantis da Disney ou outras companhias (e que os adultos tanto gostam de ver), que muitas vezes não são para as crianças perceber. São para os adultos reflectirem sobre elas e transmitirem valores adequados aos mais pequenos.

    Um beijinho ^^
    Joana

    panemicbooks.blogspot.com

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    1. Olá Joana. Muito obrigada pelo teu comentário. Sinceramente, nem sei bem o que lhe acrescentar. Acho que é exactamente isso tudo que descreveste, e acho que és um daqueles óptimos exemplos de que young adult não está só para os adolescentes, mas para toda a gente. E sim, infelizmente aqui em Portugal sinto muito mais esses pseudo-intelectuais do que lá fora, e para isso basta pensar no destaque que dão a autores portugueses considerados "literatura séria", em comparação aos autores de fantasia, ficção científica ou young adult. Espero que as mentalidades mudem no futuro :)

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  3. Confesso que não costumo ler muitos livros YA. Não por uma questão de preconceito mas porque os poucos que vou lendo (tirando o Harry Potter) não costumam ser dos meus preferidos e, por isso, vou deixando de lado. Mas concordo com este post e acho que os YA podem ter mensagens tão (ou mais) importantes que livros ditos de adultos. Vi o filme "The hate U give" há pouco tempo e foi dos melhores filmes que vi nos últimos tempos. Adorei a história, as personagens, os diálogos, a forma como aborda o racismo nos Estados Unidos... Quero muito ler o livro :)

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    1. Certo, mas isso já é uma questão completamente distinta. Não lês muitos YA porque não vão ao encontro dos teus gostos. Perfeitamente viável! O problema é quando aparecem pessoas que dizem que não gostam de YA pelas inúmeras "razões" referidas acima.

      Ainda não vi o filme, mas posso dizer-te que "The Hate U Give" foi um dos meus melhores livros de 2018, sem dúvida alguma. Espero que gostes também, pois a mensagem é maravilhosa e acho que está muito bem escrita :)

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