12.11.18

"O coração de Simon contra o mundo" | Becky Albertalli

Creekwood, Atlanta GA, EUA



Acho que este ano foi dedicado a Becky Albertalli no que diz respeito a livros young adult. Pelo menos, é essa a percepção que tenho, não só pelos livros publicados este ano, mas também aqueles que voltaram a ganhar popularidade com adaptações cinematográficas. O Coração de Simon Contra o Mundo (2015) é um livro bastante popular na comunidade literária. Já desde o seu lançamento que tinha o livro na minha estante de livros que quero ler no futuro, no Goodreads, mas sempre o conheci pelo nome original em inglês, Simon vs. The Homo Sapiens Agenda, que combina muito mais com a história do que a tradução para português (mas pronto). Contudo, só este Verão é que tive oportunidade de o ler, depois de os meus amigos o terem oferecido no meu aniversário em Maio. 

Esta review é uma daquelas que ficou por publicar durante a pausa dedicada à tese e contém spoilers mínimos. Não anuncio quem é o amorzão do Simon, mas falo de forma geral sobre a história. Ficou o aviso.



Um pequeno disclaimer: entretanto, já li outra obra de Becky Albertalli, Os Altos e Baixos do meu Coração (2017), pelo que posso dizer com certeza que a escrita dela é extremamente inclusiva sem, ainda assim, tentar parecer pedagógica. Lembram-se da moda pós John Green onde toda a doença era romantizada e usada em livros young adult? Com Albertalli encontramos inclusão de género, raça e sexualidade, por exemplo, sem parecer forçado ou usado para vendas, como nesses livros referidos. 

Neste livro específico, mais conhecido pelo título do filme adaptado pela Fox, Love, Simon, conhecemos a história de Simon, um jovem que decide arriscar e começar a trocar e-mails de forma anónima com um rapaz da escola, pseudónimo Blue. As conversas são variadas mas abordam regularmente questões como a homossexualidade e, mais tarde, sentimentos que ambos começam a sentir um pelo outro. Um outro estudante, Martin, descobre os e-mails e decide chantagear Simon, prometendo não revelar os e-mails se ele arranjar forma de marcar um encontro com Abby, uma das amigas de Simon. 

É interessante perceber que este não é um livro sobre chantagem. O próprio título do livro original, referindo-se à agenda dos homo sapiens, é uma paródia relativa à "agenda homossexual", um termo pejorativo relacionado com a comunidade gay na altura em que os seus direitos começaram a ser discutidos em praça pública (via Wikipédia). Muitas das reflexões de Simon partiam do quão absurdo era um homossexual ter que se assumir na sua sexualidade, enquanto que o mesmo não acontecia com heterossexuais. Simon, ao longo da história, procura antes encontrar uma forma de se sentir confortável ao assumir-se à família e amigos, ainda que fosse injusto ter que o fazer quando nenhum hetero o fazia. Paralelamente, tenta também procurar a verdadeira identidade de Blue sem o assustar ou obrigar a assumir-se, ao mesmo tempo que tem de lidar com Martin.

Ao mesmo tempo que tudo isto está a acontecer, temos também uma narrativa hilariante, extremamente adorável e muito leve, capaz de nos cativar e prender ao livro durante horas. Eis uma frase que representa a história num todo e que me fez rir imenso (desculpem ser em inglês, mas não tenho por hábito marcar os livros enquanto estou a ler e sou demasiado preguiçosa para ir procurar na minha tradução, um beijinho):
“And Leah’s also into slash fanfiction, which got me curious enough to poke around the internet and find some last summer. I couldn’t believe how much there was to choose from: Harry Potter and Draco Malfoy hooking up in thousands of ways in every broom closet at Hogwarts. I found the ones with decent grammar and stayed up reading all night. It was a weird couple of weeks. That was the summer I taught myself how to do laundry. There are some socks that shouldn’t be washed by your mom.”
A Leah, na verdade, é uma das personagens mais importantes na história. É a melhor amiga de Simon e a que se sente mais magoada com Simon quando ele decide assumir-se primeiro a outras pessoas e não a ela (irritou-me um bocadinho na altura, mas perdoei-a no final). Este ano, Becky Albertalli publicou o segundo livro deste universo de Simon, precisamente dedicado a Leah, chamado Leah on the Offbeat (2018). Quero muito ler, mas espero ansiosamente pela versão em português.



Em suma, e se ainda não foi suficientemente explícito, gostei bastante deste livro. Acho que é extremamente importante abordarmos livros young adult que fogem do estereótipo e representam várias pessoas, várias crenças, várias sexualidades e vários géneros. Também acho que a história de Simon é daquelas que deveria ser lida por muita gente, adultos e adolescentes incluídos, pois temos uma perspectiva adolescente de como é sentir a pressão de nos assumirmos, o receio do bullying, etc. É neste tipo de narrativas que o género young adult tem mais importância, pois dá uma voz àquilo que o jovem sente e que, muitas vezes, não é compreendido pelas pessoas que o rodeiam. É por isso que recomendo vivamente não só O Coração de Simon Contra o Mundo, mas as várias obras de Becky Albertalli.

A review de Os Altos e Baixos do meu Coração está para breve aqui no blogue.

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Leah on the Offbeat (em Inglês)

* O By the Library é um blogue afiliado da Wook e da Book Depository; ao adquirirem estes livros através dos links fornecidos, estão a contribuir com uma pequena percentagem para mim, potenciando o crescimento do nosso cantinho. Por mais leituras!

Obrigada ao Daniel, à Andreia, ao Bruno, à Cristiana, ao Nelson, à Sofia e à Ana por me terem oferecido este miminho no meu aniversário em Maio. Meses depois, continuo de coração cheio. 

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4 comentários

  1. Quero tanto, mas tanto ler este livro! E a tua opinião aguçou ainda mais essa vontade :)
    É importante haver livros que retratem estas temáticas sem as romantizarem, porque são questões que acompanham a sociedade e é bom haver identificação; não sentir que está longe da realidade

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  2. r: Concordo, totalmente, contigo :)

    Beijinhos*

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  3. Há um mês atrás comecei a ver o filme, mas com muita pena minha (e não sei já bem o porquê) não cheguei ao fim do mesmo. Tenho mesmo de vê-lo, embora preze muito os livros (para ter mais “noção” da história no seu todo, que nos filmes não fica totalmente desvendada, pois usam as partes “mais importantes). Desconhecia de todo a existência dos outros livros da autora, mas irei dar uma vista de olhos.

    Claramente, a maioria dos adolescentes não está “preparada” para lidar com as diferenças que os outros possam ter. Fui amiga por muito tempo de um amigo homossexual. No 6.º ano comecei a abordá-lo sobre isto, visto que ainda não estava assumido, mas já demonstrava estar apaixonado por um rapaz. A verdade é que ele nunca se assumiu perante minha e não necessitava. Sempre soube e sempre respeitei. Ao contrário de alguns colegas nossos, na altura, que faziam chacota dele por ter uma forma de andar, falar diferente. Hoje já não nos falamos, mas continuo a respeitar todas as pessoas que não são heterossexuais. Cada um com os seus gostos. Devemos respeitar os outros. Sempre. Mesmo que não sejamos capazes de “aceitar” que há quem seja assim (como um amigo meu que diz que respeita, mas não aceita “amigos” assim). Beijinho 😘

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