7.11.18

Ler em Portugal é caro? Os preços actuais e a Síndrome do Livro em Inglês



Um dia, no meio de uma conversa apaixonada sobre os meus livros e as colecções que já tenho nas minhas estantes, o meu namorado perguntou-me directamente se não tinha pena de ter tantos livros em inglês. Porque raio é que haveria de ter pena?!, foi essa a primeira reacção que tive, pois achava tal questão verdadeiramente sem sentido. Mas depois comecei a pensar (às vezes sou famosa por isso) e percebi onde é que ele queria chegar. Porque, no meu caso, ler em inglês passou a ser mais uma questão de sobrevivência do que uma opção ou uma escolha. E se pensarmos bem nisso, bem... É um pouco triste. 



Quem tem hábitos de leitura em Portugal não é indiferente aos preços exorbitantes dos livros à venda. Desde que comecei a ler a saga Outlander, de Diana Gabaldon, uso sempre as traduções portuguesas como exemplo por serem um abuso de dinheiro - o quarto e quinto livro custam cerca de 26,90€ na Wook, ou seja, quase 30€ por cada volume. Jalan, Jalan, um dos últimos livros do Afonso Cruz, dos mais aclamados escritores portugueses contemporâneos, está à venda por 29,90€ (em capa dura, algo mais ou menos raro aqui em Portugal). E como estes dois exemplos, existem outros que tornam as leituras em português algo muito difícil para certos leitores, estando eu incluída nesse grupo. 

Só para comparar um bocadinho as coisas entre Portugal e o mercado lá fora (seja Estados Unidos da América ou Reino Unido), resolvi trazer dois equivalentes aos livros referidos acima:
  • Os livros de Outlander, no Book Depository, custam entre 10€ a 11€ em capa mole. Mesmo se quisermos ir buscar a capa dura, por norma mais cara, continua a custar menos do que as traduções em Portugal, em capa mole: 19,34€ para o primeiro volume;
  • Indo buscar um livro em destaque e muito recente nas vendas lá fora, Kingdom of Ash, o sétimo livro da saga Throne of Glass, de Sarah J. Maas, custa cerca de £14,99 em capa dura na Amazon UK. Um livro que foi publicado há menos de um mês. 

Ler em português continua a ser caro. Mas porquê?


Pronto, a verdade é que não podemos propriamente comparar o mercado de um país de 10 milhões para um de 325 milhões, como nos Estados Unidos. Fui fazer as minhas pesquisas em relação ao porquê de os livros serem tão caros em Portugal, e encontrei alguns artigos interessantes, para além de outras publicações de bloggers que, como eu, já se questionaram acerca deste tema. A editora Planeta Tangerina, dedicada a livros ilustrados e obras infanto-juvenis, deu a sua perspectiva sobre o que se passa com o preço dos livros:

"50 a 60 % do PVP destina-se à distribuição e às livrarias. 15% do PVP serve para pagar a impressão do livro. 8% são direitos para o autor ou autores. 6% é IVA que regressa ao Estado. A percentagem que sobra, 20 a 30%, é a fatia do editor. Ou seja, a fatia do editor é variável e está dependente da percentagem da distribuição e ponto de venda. Com esta fatia o editor paga despesas relacionadas com divulgação do livro (catálogos, site, etc), promoção do livro no estrangeiro (participação em feiras, etc), design gráfico, revisão, tradução, etc."

Em 2009, a TSF fez uma reportagem cujo título aponta Portugal como o segundo país da Europa onde se lê menos. Os dados referentes a 2007 declaravam que 49% dos portugueses não haviam lido um único livro no ano anterior. E, de facto, as editoras culpam os preços altos dos livros na falta de poder de compra. Em 2015, segundo um estudo realizado pela Gfk, a venda de livros em Portugal atingiu os 12,5 milhões de unidades, algo semelhante a pouco mais do que um livro por pessoa. E a batata quente vai passando das editoras para os leitores, dos leitores para as editoras. No final, os livros continuam a ser estupidamente caros e quem gosta realmente de ler procura novas alternativas, mais baratas para a carteira. Como ler em inglês. 


A Síndrome do Livro em Inglês


Armei-me em espertinha e dei um nome àquilo que muita gente faz, ainda que não se possa considerar uma doença. A verdade é que não sou uma dessas pessoas que só compra pelo menos um livro num ano. A minha família pode testemunhar aqui, aliás, que eu sou chata e um pouco shopaholic no que toca a livros. Mas a verdade é que eu nem sempre tenho poder de compra para gastar quase 30€ num livro. Há cerca de um mês fui à FNAC comprar dois livros, o Três Coroas Negras, de Kendare Blake, e o Cebola Crua com Sal e Broa, de Miguel Sousa Tavares, para oferecer ao meu avô no seu aniversário, e acabei a gastar sensivelmente 36€. Por dois livros. 

A verdade é que todas as editoras e distribuidoras passaram a ter vários concorrentes a nível global, e jamais deveriam descurar isso. A Síndrome do Livro em Inglês surge em pessoas como eu que preferem gastar 7€-10€ por um livro na Book Depository, em vez de ter que gastar 15€-20€ por um livro na Wook, Bertrand, FNAC ou até mesmo nos websites oficiais das próprias editoras. Nem todas as pessoas estão assim tão familiarizadas com o inglês ao ponto de lerem constantemente nessa língua, é certo, mas são cada vez mais as que sabem e que estão a usar outras alternativas para lerem mais e gastarem menos. Porque a verdade é que há poucos hábitos de leitura em Portugal, mas também há muitas pessoas que os querem ter e não os conseguem sustentar lendo só em português. 



Correndo o risco de ser prejudicada no futuro se, porventura, uma editora ler este artigo, a verdade é que ler em Portugal é caro. No entanto, é aquele tipo de preço que nós entendemos de onde vem, simplesmente não podemos fazer nada em relação a ele. Surgem cada vez mais alternativas hoje que põem em causa tudo aquilo que se tem vindo a fazer até agora. Portugal continua muito atrasado em alguns aspectos. E-books já existem mas continuam a ser caros (provavelmente devido às traduções em si), e não estou familiarizada com nenhum livro em formato áudio à venda em Portugal, por exemplo. 

Pessoalmente, e depois de o meu namorado me ter questionado acerca dos livros em inglês na minha estante, tenho feito um esforço para mudar isso. Porque, caramba, eu gosto muito de ler em português. É a minha língua e devia promover mais leituras nesse sentido, não?! Os livros de Outlander foram escolhidos em português, não só por achar que o gaélico seria um pouco confuso para mim nos livros originais, mas também numa tentativa de ter mais livros em português na minha estante. No entanto, só consigo comprar um livro a cada ano porque não me é possível dar 30€ frequentemente (por muito que adore o meu Jamie Fraser, ahem). 

Todavia, sei que nem toda a gente é assim. Sei de pessoas que dependem de bibliotecas, outras que só compram e-books em inglês por ser ainda mais barato do que os físicos, e ainda mais pessoas que compram livros usados, que vão ao OLX, a alfarrabistas, etc. Nem sequer vamos pela falta de leitura que existe neste país (chega a ser chocante às vezes, para ser sincera). Mas acho que devíamos criar mais debate, tentando encontrar um equilíbrio entre aquilo que as editoras podem fazer e aquilo que os leitores podem comprar. 


Qual é a vossa opinião acerca dos livros em português? Vamos debater? 😉
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6 comentários

  1. Não me lembro da última vez que comprei um livro novo sem qualquer desconto. 90% dos livros que compro são em 2ª mão. Novos só em promoção.
    Este ano já li 102 livros, pelo que comprar todos novos é impossível...
    Uso a biblioteca quando quero ler algum livros que não seja novidade (geralmente não há na biblioteca) e também leio livros que me emprestam. Também empresto, faço trocas e vendo os que já não quero.
    Só assim é possível.
    Eu também entendo os preços dos livros mas não os posso comprar.
    Beijinhos

    https://livrosepapel.blogspot.com/

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    1. Um óptimo exemplo de uma pessoa que procura alternativas para ler em Portugal quando os preços são tão pouco acessíveis. Também são raras as vezes que compro um livro de destaque que não esteja em promoção. Este ano comprei três livros na Feira do Livro de Lisboa por o preço ser um bocadinho (inho) mais em conta. Mas tive que poupar para isso. De resto, são mais as vezes que leio e-books do que os livros físicos que compro. Espero um dia conseguir fazer compras de forma diferente.

      Obrigada pelo teu comentário, um beijinho :)

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  2. Infelizmente, tenho de concordar. Ler em Portugal é caro. Normalmente, compro os livros em inglês (na wook), no olx ou em alfarrabistas. Também compro na feira do livro ou se encontrar um livro que quero em português numa promoção boa. Tenho alguma pena de não conseguir comprar mais livros, por exemplo, de autores portugueses porque, como leitora, sei que comprar é importante para apoiar os escritores portugueses. Mas fica caro. O livro do Afonso Cruz que referiste, que também gostava de ler, é um bom exemplo. Não acho que se justifique pagar mais de 15/16 euros por um livro.

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    1. Usei o livro do Afonso Cruz como um exemplo de livros de autores portugueses que também são um abuso de dinheiro. Normalmente justifica-se com "as traduções é que fazem os livros caros" e no final não é bem assim. Lá está, existe todo um processo para lá da tradução que pesa no preço de um livro, mas infelizmente em Portugal, de forma geral, não há poder de compra que aguente os preços estipulados. Os meus livros em inglês vêm (quase) todos da Book Depository, a não ser que arranje uma promoção boa na Wook que compense mais. De resto, vou muito ao encontro das promoções existentes ou tento incumbir familiares de me comprarem os livros que quero, ahahah.

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  3. Consigo compreender, em parte, o elevado preço dos livros, porque tudo se paga. No entanto, fica difícil suportar esses custos, ainda para mais quando se gosta tanto de ler. Pessoalmente, prefiro ter os livros, por isso, não usufruo da biblioteca (algo que seria mais simpático para a minha carteira). Ou, então, ando sempre atenta a promoções e recorro, cada vez mais, a livros em segunda mão - que têm preços mais simpáticos e, grande parte deles, está em ótimas condições.
    Não me sinto confortável em ler em inglês, portanto, nem seria uma opção. Em contrapartida, adoro, genuinamente, ler em português. E tenho pena que o preço seja um grande entrave, levando a uma certa desmotivação. Mas, claro, há sempre alternativas. Só que isso não altera o facto de os livros serem caros

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    1. Eu também consigo compreender o preço dos livros, mas tenho que pensar mais em mim no que nas editoras, não é verdade? Eu também prefiro comprar os livros a tê-los emprestados, mas às vezes a biblioteca é a nossa única solução se queremos continuar a ler. Quando tinha 15/16 anos passava a vida na biblioteca municipal porque não conseguia estar sempre a comprar.

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