15.10.18

Já chega desse desprezo para com os gostos literários dos outros



Ir para a universidade estudar literatura foi uma experiência única para mim, tanto pelas coisas boas, como as más. Um dos maiores ensinamentos que me deu foi a certeza de que o preconceito existe em todo o lado, até mesmo nas áreas que são a nossa zona de conforto. Ali, no meio de académicos e estudantes, conheci o desprezo pela literatura que não é literatura, abordando certos livros que consideravam engraçados mas não eram considerados livros "a sério". É um pouco sobre isso que quero falar hoje. Se já sentiram isto em primeira mão, continuem a ler comigo. 


A verdade é que também eu menosprezei os hábitos de leitura de outros. Não só literatura, mas música e cinema, um pacote conjunto onde achava que existia o que era bom e o resto, como não cabia nos meus gostos e naquilo que eu considerava qualidade... Era uma merda. Não prestava. Quando penso em certos comentários que fiz a outros por causa disto mesmo, sinto uma vergonha desmedida pela noção de que era uma garota infantil, influenciável pela vibe intelectual que (tentava) ter desde os 16-17 anos. 

Admitir que só mudei esta perspectiva a partir do momento em que me apercebi que também o meu gosto literário era gozado por esta aura de superioridade, ainda custa mais. Mas é a verdade. 

Na generalidade da coisa - e abstenham-se de comentários se não estão incluídos nela - há certos géneros literários que só valem a pena se forem populares. Exemplos: o Harry Potter é a melhor obra de todos os tempos para a nossa geração; A Game of Thrones é igual, mas na categoria da fantasia épica. Se eu disser a umas quantas pessoas, no entanto, que uma das minhas sagas favoritas de fantasia passa-se num mundo de cortes e lordes fae, recebo revirar de olhos e a piada automática de que estou a ler um livro para fadinhas. E isto é só a ponta do iceberg. 

Aqui vêm as respostas que defendem estas opiniões: de certeza que o teu livro de fadinhas não está tão bem escrito como a história de George R. R. Martin. Ora, parabéns. Eu também gostei de ler o Crepúsculo quando tinha 12 anos e não me andam para aí a ouvir dizer que fiz uma tatuagem com um coração a dizer I ♥ Edward Cullen, pois não?! E no entanto não posso dizer que não gostei da história e delirei com os filmes porque é a realidade, tal como a realidade hoje é a de que olho para trás com a súbita vontade de me encolher em posição fetal, questionando os meus gostos de semi adolescente.




Toda a leitura é literatura, até mesmo os livros que não prestam (para nós). Temos que parar com o preconceito e deixar as pessoas ler, apenas. 


Com isto, não significa que eu não seja ligeiramente preconceituosa com algumas obras, ainda que tenha razões que, para mim, são mais do que justificáveis. Acho o 50 Shades of Grey um livro péssimo, voltando aos exemplos. Não por ser erótico, porque eu gosto de livros desse género, mas porque acho que é uma escrita que potencia o abuso de várias formas numa mulher e esse tipo de violência nunca devia ser comercializado. Mas é um bestseller, o que é que eu hei-de fazer? Achar que as minhas amigas que o leram são pessoas que aceitam violência numa relação? Ou simplesmente achar que têm uma queda por romances eróticos, independentemente de como são idealizados pelos seus escritores? Enfim. Há fenómenos que eu não entendo, e vou sempre ser honesta na minha opinião às pessoas que os querem ler, mas não quero ser a pessoa que deixa outros desconfortáveis porque critica, humilha ou despreza os seus gostos. 

A mensagem que toda a gente devia reter é a de que todos os livros são livros e todos os livros começam algo. Sabiam que o género young adult é dos mais criticados no mundo da literatura? Existe uma ideia estereotipada de que não transmitem realmente nada a não ser as dores e sofrimentos de se ser um adolescente. A minha resposta é... E então? Tantas vezes que essas dores fictícias me ajudaram a entender melhor certos episódios da minha adolescência particularmente difíceis. Para além do mais, quem começa em young adult acaba muitas vezes noutros géneros, porque, uma pequena novidade para muita gente, não somos robots que só conseguem fazer determinadas tarefas e, se quisermos, é possível ler mais do que um género. Chocante, eu sei.

Uma das coisas que mais gosto nos meus hábitos de leitura é o facto de serem tão versáteis. Para quem é assíduo aqui no blogue, sabe perfeitamente que a fantasia e young adult vão ser sempre os meus géneros predilectos. Mas quando penso nos livros da minha vida, há uma panóplia de autores, histórias, mensagens e enredos tão diferentes entre si. Passo de José Saramago para Sarah J. Maas, voltando para Jane Austen, Afonso Cruz, Ondjaki e Rainbow Rowell. 

Penso ser verdadeiramente importante desestigmatizar essa ideia de que só certas obras podem ser consideradas literatura, porque existe uma espécie de noção geral e académica daquilo que é bom e mau. Porque não assumir que todos livros são livros, e acabou? Deixar as pessoas estar porque gostam de não ficção, thrillers, autores portugueses, autores estrangeiros, ficção-científica, romances históricos, enfim.

Porque não simplesmente... Ler? 


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10 comentários

  1. Nem de propósito, a minha próxima Inconfidência surgiu por sentir que há uma grande fatia da sociedade que tem necessidade de intelectualizar tudo, como se os artistas (independentemente da sua arte) que ela não reconhece valor fossem menores.
    Cada um tem direito a preferir um estilo em detrimento de outro, o que não pode acontecer é esse julgamento, que, no fundo, não faz sentido. Porque não é o nosso gosto que define o que é excelente. Define-o para nós, mas não é uma verdade universal.

    Excelente reflexão, minha querida!

    r: Foi o primeiro que fui e adorei a experiência. Espero ter a oportunidade de marcar presença no próximo ano, porque o ambiente é fantástico e aprende-se muita coisa. Já fizeram, em Setembro

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    1. É tanto isso, Andreia. Há tanta gente que se considera intelectuais e no seu direito em criticar e julgar os gostos de outras pessoas. Arte é arte, independentemente de nós gostarmos dela ou não, e o julgamento tem mesmo que ser posto de parte porque ao fim e ao cabo estamos todos a fazer a mesma coisa: absorver arte. :)

      Obrigada!

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  2. Olá! Estou no segundo ano de Línguas, literaturas e culturas e sem dúvida que te compreendo. Estou na boa a andar pela faculdade com um livro para uma cadeira, no entanto, não me sinto à vontade para fazer o mesmo com os meus livros de YA/ fantasia. Já para não falar dos professores que torcem o nariz aos livros que alguns colegas meus, mais corajosos, levam. Sem dúvida que este elitismo não deveria de existir e é, nada menos nada mais, que uma parvoíce. Penso que todos os livros têm valor, até 50 shades of grey: existe para mostrar o que é escrita má e se há pessoas que gostam, oh well cumpriu o seu objetivo, cativou e entreteu alguém. Já chega de julgar, já chega de achar que toda a gente tem de achar Saramago incrível, que toda a gente necessita de preferir "Os Lusíadas" a Jojo Moyes, Tahereh Mafi ou Philippa Gregory. Let´s make a chance. let's change things!

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    1. Já tínhamos falado via Instagram sobre isto, e por aqui continuo a realçar que senti o mesmo que tu e que percebo o que dizes perfeitamente. Também estudei LLC e havia todo um elitismo (mais por parte dos alunos do que dos professores, no meu caso) em relação a certos livros só porque não faziam parte da fatia considerada intelectual no mundo académico. Concordo plenamente, todos têm direito a gostar de certos géneros ou autores, seja o seu favorito E. L. James ou George R. R. Martin ;)

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  3. Excelente artigo, Sónia!
    Em 2012 fiz uma análise parecida, quando ainda olhava para o mercado editorial brasileiro (http://leia.pt/litentretenimento).
    A literatura pode sim ser despretensiosa, assim como o teatro e cinema. Nós não vamos ao teatro e ao cinema pensando no quanto vamos evoluir após absorver aquele conteúdo. Nós simplesmente absorvemos de forma natural e, caso haja algo que nos faça pensar, aquilo plantará uma semente. Com o livro funciona da mesma forma. Você se envolve com a história e absorve aquilo de forma natural. Se você não entende o que está escrito, meu conselho é fechar e partir pra outro. Com o tempo, e com mais bagagem, um dia você estará pronto para tentar lê-lo novamente se quiser. Mas não adianta forçar, tem que ser um processo evolutivo. E acredito que a literatura de entretenimento ajuda nesse caminho.

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    1. Olá, Lorran :)
      Muito obrigada pelas tuas palavras. E concordo plenamente! Já abandonei livros porque ainda não me sentia preparada para eles. Não me senti burra nem inferior por não entender a história, simplesmente concordei que precisava de uma altura onde tivesse progredido (às vezes nem é uma questão de progredir na leitura, mas progredir na maturidade enquanto pessoa) para saber apreciar aquela obra.

      Também acho que a literatura de entretenimento é uma óptima ajuda nesse sentido. Quanto muito, ensina-nos a criar hábitos de leitura e a procurar novos títulos. Um beijinho :)

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  4. Muitos parabéns, Sónia, por esta excelente publicação. Vou guardá-la nos favoritos para mostrá-la de cada vez que criticarem os meus gostos literários, porque os meus argumentos já esgotaram e escrito tem outro impacto.
    Também me confesso culpada de já ter menosprezado os gostos musicais ou cinematográficos dos outros e também só mudei quando senti na pele as duras críticas que recebi quanto aos meus gostos literários.
    Há um certo elitismo no que toca a hábitos de leitura e que me irrita particularmente: aquelas pessoas que só lêem clássicos e que acham que tudo o resto não são "livros a sério". Livros são livros. Existem aqueles que dão grandes lições de vida, aqueles que servem apenas para entreter ou aqueles que são uma mistura dos dois, mas todos são importantes.
    Não sabia que os young adults eram o género mais criticado de sempre. Achava que eram os livros eróticos (pessoalmente eu não tenho nada contra esse género aliás, até gosto, mas também dispenso As Cinquenta Sombras de Grey"). Mas não me surpreende. As pessoas têm a ideia que nesses livros só existem os típicos romances de adolescentes, mas não é de todo verdade. Ler YA em adulta tem sido muito revelador para mim, tem-me ajudado a compreender uma série de sentimentos e atitudes que eu tive em adolescente e que não compreendia.
    Beijinhos
    Blog: Life of Cherry

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    1. O mais engraçado é que os clássicos de hoje foram um dia a literatura fácil e muitas vezes menosprezada na altura de publicação! É certo que hoje a definição de literatura expandiu e temos actualmente géneros distintos que antes não havia, porque antigamente a intelectualização ainda era mais forte nos livros que podiam ser publicados ou não. Mas não significa que daqui a 50 anos um dos nossos livros de light reading continue a ser abordado e popularizado.

      Os young adult são dos mais criticados, não o mais criticado. Já não me lembro onde é que li isso, mas penso que foi numa discussão qualquer via Twitter. Os livros eróticos também são muito vistos de lado, mas também acho que o 50 Shades of Grey criou uma espécie de zona cinzenta onde os leitores já não são tão humilhados, apenas vistos como uma piada ou sei lá. Mas isso é a minha opinião pessoal daquilo que me lembro na altura da publicação do romance. Concordo contigo que a literatura YA é extremamente rica, não só ao entendermo-nos a nós mas também as atitudes dos outros :)

      Beijinhos!

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  5. Não poderia não concordar contigo. São julgamentos que não fazem o menor sentido, afinal são os meus gostos. É absolutamente normal e aceitável que eu ache x livro o máximo e tu não o aches, mas isso não quer dizer que tenho gostos literários fracos, simplesmente, tenho ideias e gostos diferentes.
    As pessoas têm uma mania de acharem que só o que elas fazem\dizem\vêem é que é giro e é que é correto. Mas mais uma vez, batemos na questão do respeito e enquanto ele faltar, vão continuar a existir situações destas.
    Na questão dos livros, tanto passo pelo romance, como pela fantasia, como pelos policiais. Depende do momento e do que me apetece ler. E ainda bem que existe esta variedade de géneros literários.

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    1. Eu já fui uma dessas pessoas, lá está. Acho que estava a ser um pouco influenciada pela vibe intelectual da vida académica (estudei LLC e isso, só por si, já é um ambiente totalmente diferente do que se vive nos bookstagrams, booktubes ou blogues). Mas tive que bater com a cabeça e crescer um bocadinho para perceber que não é bem assim. Hoje sou apologista de uma conversa livre sobre todo o tipo de literatura, sem julgamentos. E assim é que deveria ser sempre ;)

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