20.4.18

O impacto que os livros podem ter nas nossas vidas

uma fotografia sem maquilhagem, porque amor-próprio também tem (ou tenta ter) destas coisas ♡

Quando era pequena recebi a minha primeira herança de família. Era uma edição já muito antiga, com a lomba toda colada, preservada da melhor maneira possível, daqueles livros de 365 Histórias. Tinha pertencido à minha mãe e tia, 20 anos antes, e passava agora para mim. Pouco tempo depois, lembro-me que recebi uma edição nova do mesmo livro, praticamente igual. Era a melhor forma de acabar o meu dia: no colo do meu avô, a ler aquelas histórias pequeninas com animais falantes. 




Mesmo antes de saber ler ou escrever, já tinha o meu coração entregue aos livros. O meu avô dizia-me que mesmo sem saber ler, já costumava agarrar no livro e era eu que inventava as histórias, como qualquer criança com uma boa imaginação, mas claramente a tentar mostrar que já era muito boa nas minhas leituras. Isso, juntamente com algum apoio e incentivo por parte de todos lá em casa, fez com que no meu primeiro ano de escola já soubesse ler qualquer coisa. Os ditados, as leituras, aprender a escrever e a ler mais e melhor foram as minhas actividades favoritas da escola primária.

Mais tarde, com 11-12 anos, tive a minha primeira leitura "séria". Não me lembro se foi por sugestão ou se fui eu que o encontrei, mas sei que gostava muito de bisbilhotar as estantes da minha mãe, o que levou, eventualmente, ao encontro com a História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar (1996), de Luís Sepúlveda. Foi o livro que me fez querer livros maiores, mais completos e não tão infantis.


Foi o livro que me mostrou, definitivamente, que não era apenas gostar de ler. Foi o livro que me deu a entender, tão claro como água, que a minha relação com os livros seria para a vida toda. 



Vocês já sabem que ler salvou a minha vida. Que os livros sempre foram melhores amigos, companheiros, heróis sem (ou com?!) super-poderes. Mostraram-me que podia ser tudo aquilo que eu quisesse, pois as personagens não só salvavam os seus mundos ficcionais, como me salvavam a mim, motivando-me a ser forte como elas, poderosa como elas, indestrutível como elas. A eles devo-lhes tudo o que sou hoje, à construção da pessoa que sou hoje, desde a pequenina que se perdia com as 365 histórias, até à pseudo-adulta que com quase 23 anos, continua a querer voar nas costas de um dragão (e que provavelmente vai continuar a querer fazê-lo até aos 80).

Sou apologista de que ler é para todos. Acho estranho que alguém me diga que não gosta de ler, pois acredito que, na maior parte das vezes, isso é sinónimo de ainda não terem encontrado o livro que os faz mudar de ideias. Gosto sempre de me lembrar de um episódio com um colega meu nos tempos de escola: estávamos na biblioteca municipal a fazer um trabalho e ele disse-me que não gostava de ler. Decidi provar que estava errado. Fui procurar um livro humorístico que tinha lido há uns anos atrás, o tipo de leitura rápida, leve e divertida que cativa qualquer pessoa. E esse meu colega ficou interessado. Durante uma meia hora, talvez, deixou-se levar e começou a rir-se. Perdeu-se nas páginas, esqueceu-se que não gostava de ler. E eu, de nariz empinado e muito orgulhosa de mim mesma, olhei para ele e dei-lhe o meu maior "I told you so". Um exemplo que ler pode chegar a todos.

Cada pessoa tem um perfil literário, algo que os distingue e faz com que o mundo da literatura seja tão diverso e interessante para todos. Eu, por exemplo, aprecio literatura infanto-juvenil, literatura paranormal, sobrenatural, etc. Outros leitores vão para a literatura erótica como a de E. L. James ou romances como os de Pedro Chagas Freitas ou de Margarida Rebelo Pinto. O meu avô lê fundamentalmente biografias e, ocasionalmente, Miguel Sousa Tavares e ainda mais raramente José Rodrigues dos Santos. Um amigo meu lê praticamente só thrillers, narrativas a puxarem para o suspense e para o terror. O meu namorado, das poucas vezes que tenta pegar num livro , parece ficar mais interessado em livros de não-ficção. Várias amigas minhas gostam de chick-lit como os livros da Bridget Jones, e outras tantas são viciadas nos livros de capas bonitinhas com romances históricos como as obras de Lesley Pearse. 

Vocês podem "não gostar muito de ler", achar aborrecido ou inclusive darem a desculpa de que não têm tempo para o fazer. Tudo aceitável, tudo viável. Mas não desistam da literatura sem antes lhe dar uma oportunidade. Quando andei a vasculhar as estantes da minha mãe, percorrendo os vários volumes de literatura inglesa que ela estudou e passou a amar quando tirou o seu curso em Literaturas Clássicas, confirmei finalmente aquilo que os livros já sabiam sobre mim:

 Que me iria perder em cada livraria que encontrasse. Que sonharia com bibliotecas antes de sonhar com casas. E que procuraria sempre o cheirinho a papel num livro novo, como quem procura uma razão para viver. 

A missão que um livro tem na vossa vida depende das vossas vivências, da vossa personalidade e até mesmo do vosso perfil literário de que vos falei mais acima. Pode ser só um livro, podem ser vários. Pode ajudar-vos a tomar uma decisão difícil. Pode ajudar-vos, inclusive, no vosso trabalho, no vosso hobbie favorito, no plano para uma viagem perfeita. Todos os livros são válidos, todos os livros trazem algum ensinamento e todos os livros, de forma única e inexplicável, têm um impacto na vossa vida. 

Pode ser pequeno. Pode ser praticamente inexistente. Pode ser gigante. Só não deixem de dar aos livros a oportunidade que eu, e certamente muitos mais amantes de livros, meus eternos companheiros de leituras e amor às páginas, lhes demos. Talvez venham a surpreender-se. Talvez os livros cheguem mesmo a mudar as vossas vidas. Certamente mudaram a minha.

 

Este texto serve como prelúdio para a celebração do Dia Mundial do Livro, na próxima segunda-feira, dia 23 de Abril. Por mais leituras, mais bibliotecas, mais autores e mais histórias que nos revolucionem o coração. 

9 comentários

  1. Mais um texto inspirador, parabéns! É contagiante este amor pelos livros, até mesmo para os que já são amantes de livros, como eu.
    Referes neste teu artigo coisas com os quais eu nunca tinha pensado, como os vários perfis literários que cada pessoa tem. Achei isso muito interessante.
    Depois, outra passagem com que eu também me identifiquei foi quando falavas dos livros que têm impacto em nós. É verdade, já li muitos livros, e cada um teve um impacto enorme na minha vida.
    Se já me conquistaste com o artigo em que falas nos livros que salvaram a tua vida, com este ainda me conquistaste mais. Tens aqui uma seguidora assídua das tuas palavras a partir de agora.
    Um beijinho grande! E parabéns! ;)
    https://daisys16.blogspot.pt/

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    1. Ohhh, muito, muito obrigada Ana Margarida! Tento simplesmente transmitir aquilo que me passa pelo coração. Os livros são mesmo os nossos eternos companheiros :) ainda bem que pensas como eu e obrigada pelas tuas doces palavras! ♥️

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  2. O lado mágico da literatura é que há sempre um livro que é feito para nós; que nos conquista e nos mostra que as histórias podem ser verdadeiros aliados. Não podemos é desistir!

    Este texto está tão inspirador, que nenhum comentário lhe fará justiça! Tu fazes magia com as palavras, por isso será sempre um gosto ler-te *.*

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    1. Concordo a 110%! Por isso é que digo que não entendo pessoas que dizem não gostar de ler. Acho que é sempre um caso de ainda não terem encontrado o companheiro ideal que os faz mudar de ideia!

      Obrigada, muito obrigada minha Andreia! Nem sei o que dizer! 🙈

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  3. Que texto maravilhoso. E, mesmo não lendo tanto quanto queria ou devia, identifico-me com cada palavra que dizes. Também sinto essa estranheza quando alguém me diz que não gosta de ler. Como é que é possível?! É o mesmo que dizer que não se gosta de música - há uma para cada um de nós :)

    Jiji

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    1. Obrigada, Joana! Somos muitos e bons, nesta nossa relação com a literatura! E concordo plenamente contigo, a música é um bom exemplo de comparação, pois há sempre um estilo, uma banda ou até mesmo uma canção indicada para cada um de nós. E com os livros é exactamente igual :)

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  4. Também sou completamente dependente. E que bom que é. :)

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  5. Gosto de ler e gosto de ler sobre ler. E de falar sobre ler. É, de facto, uma sensação fantástica quando conseguimos meter alguém a ler. Acredito no que dizes, que toda a gente gosta de ler se descobrir o seu estilo. E nenhum estilo é melhor do que outro, ninguém é melhor por ler grandes clássicos. Cada livro tem um ensinamento ou uma função, nem que seja distrair-nos. E isso na quantidade de vezes que usamos frases de livros ou histórias deles e as trazemos para a nossa vida.
    Este texto está muito bonito.
    Beijinhos
    https://andreiamoita.pt/

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