8.3.18

O Poder da Representação e a Importância das Heroínas na Ficção



Adoro o poder que a ficção tem para influenciar como nos estamos a sentir no momento. Várias histórias já me deixaram deprimida, irritada, confiante, bonita, divertida, melancólica, enfim. O poder dos livros e do cinema é mesmo esse, de nos dar uma escapatória para outro lado, ao mesmo tempo que nos faz aceitar melhor a realidade em que vivemos. Para mim, enquanto jovem adulta e mulher, as histórias sobre mulheres que revolucionaram alguma coisa, nem que seja o meu mundo, foram das mais importantes que tive na vida, as que mais me influenciaram.

É sobre isso que quero falar hoje, no Dia Internacional da Mulher. No poder da representação e quando as heroínas das nossas histórias de infância nos dão super-poderes para sobreviver a tudo. 




Quando escrevi Ler salvou a minha vida e pode salvar a tua também, acabei por logo indiciar muitas das minhas heroínas na adolescência, as várias jovens que foram as protagonistas das suas vidas, que revolucionaram o mundo em que viveram e influenciaram finais felizes. A verdade é que essas personagens femininas ajudaram-me nas alturas que mais precisei, pois deram a sua coragem e determinação para aguentar os meus próprios problemas.

Hermione Granger foi, talvez, a grande influência da minha adolescência. Através de textos antigos aqui pelo blogue, sabem que só li a saga de Harry Potter (1997-2007) por volta dos meus 14 anos. Acabei por ter uma percepção diferente da história, mais madura, mas acho que acabou por ter ainda mais impacto na minha forma de pensar, principalmente no que dizia respeito à melhor amiga de Ron e Harry. Hermione foi ridicularizada desde sempre: demasiado inteligente, demasiado snob, demasiado irritante, demasiado chata, dentes demasiado grandes, cabelo nada controlável e, o horror, a melhor da sua turma. Mas toda a gente sabe que, e isto é common knowledge para qualquer potterhead, sem Hermione a história teria terminado para aí no segundo livro porque a miúda, mesmo tendo sido petrificada pelo basilisco, disse aos amigos tudo o que precisavam de saber sobre o monstro da Câmara dos Segredos. Sem falar das outras 1000 vezes que os salvou nos livros seguintes, mas nem vamos por aí.

Quando saiu Wonder Woman (2017), surgiram imensas críticas que disseram o quão mau era o filme. O filme não prestava, a actriz Gal Gadot era fraca, não ia ter grande sucesso tanto nas salas do cinema como fora delas, etc. Ninguém conseguiu captar a importância que o filme teve para lá das críticas de cinema, para lá da opinião intelectual que afirmava ser um dos piores filmes produzidos no mundo da DC. De repente, havia uma heroína autêntica, heroína mulher, alguém que pudesse ser fonte de inspiração para todas as meninas espalhadas pelo mundo. A consequência de um filme onde a protagonista feminina não se encontrava na sombra dos heróis masculinos (como acontece com a Black Widow dos Avengers, onde todos eles já tiveram blockbusters menos ela), foi milhares de miúdas que passaram a sonhar em ser Mulheres Maravilha, aspirando a ter a mesma força, confiança e determinação do que Diana Prince.

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REPRESENTATION MATTERS


Para além das mulheres das nossas vidas, como as nossas mães, tias, avós ou outras figuras inspiracionais que moldaram a nossa ambição quando fomos mais novas, ninguém me tira da ideia que as heroínas das nossas histórias de infância são vitais para o nosso crescimento. Quando estamos na fase de sonhar, de infantilizar a realidade com magia, com os nossos brinquedos e o mundo que criamos com a nossa imaginação pequenina, temos certas figuras na nossa mente, heroínas que nos fazem pensar automaticamente "um dia quero ser como ela". 

Hoje em dia, crianças e adolescentes têm mais oportunidades de se relacionarem com personagens de livros, cinema ou séries de televisão do que no meu tempo. Porque a representação é importante, é algo que se deve ter em conta, e hoje já temos escritoras, produtoras, roteiristas e até mesmo designers de moda que pensam naquilo que não tiveram quando eram mais novas.

Num ambiente mais sério e crescido, já temos mulheres protagonistas de cor, como Olivia Pope em Scandal (2012) e Annalise Keating em How to Get Away with Murder (2014), já temos mulheres transsexuais com papéis de renome como Laverne Cox em Orange is the New Black (2013), e começamos a ter filmes onde a relação homossexual é valorizada e representada, como Blue is the Warmest Color (2013) ou Carol (2015). Em livros, lembro-me sempre de Eleanor & Park (2012), de Rainbow Rowell, pois Eleanor era overweight, e o facto de ter mais peso não foi algo sequer mencionado no romance, mas sim normalizado, mostrando que até mulheres com excesso de peso conseguem, obviamente, ter uma relação. Blue Sargent, da saga paranormal The Raven Boys (2012-2016) é sugerida como sendo uma jovem de cor, e cada vez mais surgem livros young adult que procuram representar jovens com doenças e/ou deficiências, que embora na maior parte dos casos ainda não sejam bem realizadas, romantizando mais a doença do que outra coisa, começam a abrir caminho para verdadeiras obras onde também haja espaço para essa comunidade.

Para crianças, os primeiros passos começam a ser dados. Em Harry Potter and the Cursed Child (2016), a actriz escolhida para fazer de Hermione é negra, algo que J. K. Rowling aplaudiu pois em nenhum livro foi indicado que Hermione seria branca, o que permite a interpretação variada do leitor. Moana (2016) é um filme lindíssimo, sem princesas à procura de príncipes, mas de uma menina de cor, das ilhas da Polinésia, cuja representação cultural é on point e cujos actores escolhidos são de descendência polinésia. E no que toca a Frozen (2013), pela primeira vez começa a ponderar-se uma princesa da Disney ter um interesse amoroso feminino, ainda que não confirmado.

O papel da mulher na ficção já não é o tipicamente idealizado durante séculos. Cada vez mais existem novas histórias onde as mulheres são representadas na sua totalidade e em todos os campos artísticos: nos livros, no cinema e até na música. As nossas heroínas são cada vez mais únicas, destacam-se pela sua imperfeição, pelo orgulho que têm na sua cultura ou na simplicidade de, ainda que não preencham os estereótipos hollywoodescos, continuam a ser mulheres que merecem ser aclamadas, idolatradas, celebradas. 

Nas redes sociais como no Twitter e Instagram, perguntei quais foram as vossas heroínas de infância e/ou juventude. Uma das respostas mais comuns? A Mulan. O que não deixa de ser curioso e digno de atenção, pois a princesa da Disney favorita da grande maioria das pessoas que me responderam, é nada mais, nada menos do que a única que não é salva por um príncipe encantado, mas que é uma mulher ambiciosa, capaz de lutar, determinada a ter aquilo que quer e que não se conforma com o que a sociedade quer dela.

Em jeito de conclusão, deixo-vos então as grandes heroínas escolhidas por vocês. Relembrem as heroínas que vos deram força e determinação, apaixonem-se por as novas personagens que nos inspiram a ser mulheres, e que continuemos a ter orgulho de ser mulher, tanto na ficção como na realidade.

#HAPPYINTERNATIONALWOMENSDAY ❤







6 comments

  1. «(...) as heroínas das nossas histórias de infância são vitais para o nosso crescimento», não podia estar mais de acordo! A forma como as suas personagens são construídas pode influenciar-nos para sempre, sobretudo porque nos permite olhar para tudo com muito mais consciência. Além disso, são elas que, muitas vezes, fazem a ponte entre aquilo que nos acontece e a nossa capacidade de o interpretar e superar.
    Quantas vezes não lemos um livro, vemos uma cena qualquer, ouvimos uma música e não sentimos que poderia ser a nossa história? É este lado proximal que acaba por nos alargar os sonhos e nos transmitir a força suficiente para seguirmos em frente.
    Quando vi a tua publicação no twitter, fiquei extremamente curiosa com o resultado. E, claro, adorei o texto! Porque é uma excelente homenagem a todas as nossas heroínas.
    Parabéns :D

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    1. Muito obrigada, querida Andreia! Agradeço sempre o teu entusiasmo e comentários, as tuas palavras doces em resposta a todos os textos que publico! Do fundo do coração, obrigada :)

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  2. Eu cresci com as lições de amizade e companheirismo das histórias da Enid Blyton que tinham sido da minha mães (As Gémeas; O Colégio das Quatro Torres), com as peripécias e basicamente "o que não fazer" da "Alice" da Phyllis Reynolds Naylor e então mais tarde a Hermione, uma figura irrefutável de nós miúdas. A nível de desenhos animados acho que estivemos bem servidas, como por exemplo as poderosas mas queridas Powerpuff girls, a Kim Possible e todas as princesas Disney (concordo que a Pocahontas e a Mulan foram as mais badass da altura).
    Excelente texto mais uma vez, obrigada :) Feliz dia da Mulher!
    Beijinhos!

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    1. Adorava as histórias da Enid Blyton, e é bem verdade que tivemos as nossas Powerpuff Girls e Kim Possible! Ainda assim, acho que hoje temos uma ficção mais inclusiva e que respeita todas, o que é algo bastante positivo e sinal de evolução :)

      Muito obrigada, Catarina! Espero que o teu dia da mulher tenha sido fantástico!

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  3. Nao podia estar mais de acordo ctg. Cresci nos anos 80, as minhas heroínas foram muito diferentes da vossa geracao de 90s e 00s talvez a que venha mais a memória seja Angela Lansbury em Crime, disse ela como eu adorava ser cm ela a desvendar crimes como se não houvesse amanhã :)
    Bjinhosss
    https://matildeferreira.co.uk

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    1. As heroínas diferem mediante as nossas gerações. Independente disso, o importante é termos uma figura que nos marque e inspire, acho que é sempre fulcral no nosso crescimento :)

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