12.2.18

SELF-LOVE TALES PT. II | Perdoar quem somos




Confesso que já tentei, várias vezes, escrever os meus self-love tales outra vez, mas sempre sem sucesso. Desde a primeira publicação, onde falo sobre como admitir que estamos mal é o nosso super-poder, já se passaram quatro meses de muita introspecção e muitas feridas a começarem a sarar, finalmente. Uma jornada que por ser tão difícil, tão íntima, tão despida de falsidades e ilusões, torna bastante mais complicado todo este processo de escrever sobre como estou a começar a gostar de mim. O conto de hoje? Muito especialmente, fala sobre o perdão.

Porque mais do que conseguir perdoar os outros, temos que nos perdoar a nós mesmos.


Alguém já leu Turtles All the Way Down (2017)? É o último romance young-adult de John Green, talvez a melhor obra que ele já escreveu na sua vida. Conheci a história de Aza Holmes, uma jovem de 16 anos que tem um transtorno obsessivo-compulsivo; o autor nunca dá um nome oficial ao problema dela, mas a obsessão e ansiedade que tem em torno das bactérias e micróbios que todos nós temos dentro de nós, sem controlo possível, levam-me a achar que é isso mesmo, uma OCD (obsessive-compulsive disorder).

Ninguém consegue controlar os micro-organismos que habitam em literalmente todo o lado. Estão dentro de nós, em todas as superfícies que tocamos, em tudo o que vestimos e até comemos. O terror de Aza passa pela incapacidade de controlar as doenças raras que começam exactamente com esses micróbios incontroláveis. Tudo isto transforma Aza, vivendo constantemente obcecada com higiene, incapaz de frequentar certos sítios, divertir-se como as pessoas normais, beijar como as pessoas normais.

Viver com um transtorno destes tem as suas consequências, nomeadamente nas relações que tem com a família, com os amigos ou com quaisquer rapazes que possam ter interesse nela. 

Aza muitas vezes estraga momentos agradáveis, o pânico transformando-a de tal forma que acaba por ser uma pessoa demasiado reservada, incapaz de dizer sim a certas saídas, não sendo uma pessoa propriamente divertida. Mais do que isso, tem plena noção que é assim. Mas não consegue realmente controlar-se, a si e à sua doença.



A ANSIEDADE DE TER ANSIEDADE


Não tenho nenhum transtorno obsessivo-compulsivo, os meus ataques de ansiedade não são tão profundos quanto os desta personagem, que a determinado ponto começa a ingerir álcool desinfectante para as mãos com a ideia de aniquilar os micróbios que estão a apoderar-se dela, ou é assim que ela pensa. Mas Aza Holmes mexeu imenso comigo porque, tal como ela, já fui a party pooper de muitos eventos, muitas festas, muitos tudo. Não apenas em relação aos meus ataques de ansiedade, mas também em relação ao meu temperamento irascível, explosivo, que gerou demasiadas discussões porque não andava bem há demasiado tempo. 

Independentemente do que acontecia, dei por mim imensas vezes a olhar para mim e a perguntar, entre a raiva e o ódio, "porque é que não consigo simplesmente parar com isto?", o que levava sempre a um monólogo interno de self-loathing porque eu tinha que ser mais forte do que tudo e todos, capaz de me controlar mais e melhor, etc. 

Cheguei a um ponto da minha vida com a plena noção de que começava a ter ataques de ansiedade com o medo de ter um ataque de ansiedade. E isso entristecia-me imenso.

A verdade é que quando fazemos este tipo de perguntas, estamos a tentar escavar um buraco para não vermos a luz, porque achamos que não a merecemos. Porquê eu, porquê eu, porquê eu, e a terra começa a acumular-se e o topo de onde caímos fica cada vez mais alto, inacessível.

É muito fácil falarmos sobre os nossos defeitos e virtudes, mas é quase impossível abordarmos as nossas fraquezas. 


Nos últimos quatro meses de psicoterapia, tenho vindo a entender porque é que sempre agi desta forma. Finalmente consigo perceber o que é que se passa comigo, tudo relacionado com coisas que não estou preparada (nem sei se alguma vez estarei) a partilhar por aqui, num sítio tão público, mas que moldaram e formaram a minha depressão, a minha personalidade e os vários traumas escondidos cá dentro.

Quando entramos, por fim, na parte do entendimento, subimos uns degrauzinhos em direcção à parte mais difícil de todas: o perdão. Porque na nossa cabeça há todo um pânico com a noção que somos uns merdas para com os nossos amigos, a nossa família. Pelas vezes que respondemos mal, pelas vezes que discutimos sem razão, pelas vezes que a raiva toma conta de nós, mas também pelas vezes em que os nossos amigos têm que acabar a festa mais cedo porque a Sónia está a vomitar a um canto, ou porque não consegue respirar devidamente, ou porque a claustrofobia de estar rodeada de um grande aglomerado de pessoas a deixa em pânico, sem saber realmente o porquê.

Olhar-me no espelho e aceitar as minhas fragilidades ainda é das coisas mais difíceis que tenho que fazer. Há dias terríveis onde a questão tenebrosa começa a pairar no ar... Porquê eu? E só agora começa a ouvir-se um eco contra o penhasco por onde estou escondida que diz... E qual é o problema?

Porque a verdade é que os nossos amigos, a nossa família, as pessoas que realmente nos conhecem e sabem exactamente o porquê e decidem não julgar mas sim amar ainda mais, essas pessoas já nos perdoaram há imenso tempo. Resta apenas sermos nós a fazê-lo também. 

A verdadeira lição por detrás deste conto de amor-próprio, é que se queremos amar quem somos, temos que começar por nos perdoarmos pelos erros que cometemos, pelas pessoas que perdemos devido ao nosso feitio, pelas discussões que gerámos e os momentos desconfortáveis que os nossos entes queridos tiveram que saber lidar quando estávamos no nosso pior.

E não, não me sinto isenta de culpa. Não acordei magicamente com um sentimento de liberdade em relação a todos os esqueletos no meu armário. Mas entendi que temos que saber respeitar quem somos, arrumar os nossos momentos maus na nossa cabeça e no nosso coração. Parar com a dança da chuva que andamos a fazer há anos, a pedir tempestades como se o nosso maior desejo passasse por nos espezinharem, esfregarem na cara as nossas fragilidades e defeitos.

Começar a escalada em direcção ao sol.

Um sol onde perdoamos quem somos e prometemos ser sempre melhores do que a pior versão de nós mesmos.



2 comentários

  1. A chave é mesmo respeitarmos quem somos. Mas isso nem sempre é algo fácil, e muito menos inato. Porque nos obriga a reconhecer essas fragilidades e a lidar com o facto de sermos vulneráveis e de haver coisas que não conseguiremos controlar, por mais que tentemos.
    O caminho até nos aceitarmos e, consequentemente, perdoarmos os nossos esqueletos no armário é longo. Temos que ser pacientes e não desistir de nós. Porque quando compreendemos o que nos consome, quando conseguimos ir mais fundo na questão, deixamos de perguntar constantemente sobre o porquê de nos ter batido à porta, para começarmos a perguntar «sou assim, como é que posso gerir isso?». A nossa maneira de ver as coisas muda, assim como muda a forma como nos passamos a amar

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