24.2.18

Os 5 livros favoritos de autores portugueses e africanos



Eu sei, eu sei. Como assim a Sónia não respira literatura fantástica? Eu sei que dou essa sensação, porque é só sobre isso que eu escrevo por aqui, mas a verdade é que adoro literatura portuguesa. Nem sempre fui assim, mas foi principalmente com a minha licenciatura em Literatura & Artes que aprendi a valorizar a escrita do povo português. Contudo, e também através do que aprendi na universidade, descobri um outro amor grande: a literatura africana, escrita com o nosso português, de autores luso-descendentes. Foi assim que nasceu a nova publicação aqui no blogue: os 5 livros favoritos de autores portugueses e africanos. 





1. Os Livros que Devoraram o meu Pai (2010), Afonso Cruz

Qualquer dia faço uma lista completamente dedicada a Afonso Cruz, pois ele é, talvez, o meu autor português predilecto. Já li cinco obras dele e, no futuro, espero conseguir ler todos os seus trabalhos. Há uma delicadeza e magia em tudo o que escreve, com um toque pessoal único que deliciam qualquer leitor. Os Livros que Devoraram o meu Pai é talvez o meu mais querido, pois explora o amor pelos livros e a paixão de um miúdo quando descobre o que foi, exactamente, que devorou o seu pai. Fazemos uma viagem mística pelos clássicos visitados pelo seu pai e, novamente, pelo filho. Para qualquer apaixonado por livros, esta história pequena, mas muito rica, toca-nos e dá-nos vontade de ler mais e mais. 



2. As Intermitências da Morte (2005), José Saramago

A minha relação com José Saramago nem sempre foi fácil, depois de uma primeira desilusão na escola secundária com Memorial do Convento (1982). Foi na universidade que a minha Bia me deu a conhecer o outro lado de Saramago, mostrando-me também um dos seus livros preferidos do autor, As Intermitências da Morte. Aqui, ficamos a conhecer a história da Morte, que um dia simplesmente deixou de matar. Instala-se uma espécie de crise nacional no país onde as pessoas deixaram de morrer, os lares a aumentar e cada vez mais sem espaço porque toda a gente continua viva, sendo que alguns grupos começam uma espécie de mercado clandestino onde levam moribundos para lá da fronteira para morrerem por fim. Pelo caminho, ficamos a saber porque é que a Morte deixou de matar e como a sua história acaba. É um livro lindíssimo, cheio das típicas mensagens de Saramago, o humor escondido, etc. 



3. Os Transparentes (2012), Ondjaki 

Ondjaki é um escritor angolano que escreve em português, e as histórias que nos contam têm sempre um timbre activista/político, típico de escritores como Saramago, que tentam utilizar o seu trabalho para deixar uma mensagem ou uma crítica para quem queira ler. Os Transparentes é um romance lindíssimo, que fala sobre o contraste entre a pobreza de um povo e a riqueza das empresas que tentam ganhar dinheiro ao destruir um país. A personagem principal, sem dinheiro para comer, vai ficando cada vez mais transparente e um dia levita, vazio, sob uma cidade em chamas. As reflexões do autor são daquelas tipo metáforas que nos embalam, dando vontade de ler mais. Já li, entretanto, poesia e outras micro histórias dele, e a magia mantém-se.




4. O Vendedor de Passados (2004), José Eduardo Agualusa 

No meu 3º ano, resolvi fazer um trabalho onde comparo esta obra de Agualusa com D. Quixote de la Mancha (1615), de Miguel Cervantes. O livro, em segunda mão, comprado num alfarrabista em Évora, está todo escrevinhado com anotações comparativas com o clássico espanhol do séc. XVII. Muito pequenino - pouco mais de 150 páginas, li-o numa tarde em que fui fazer voluntariado num museu, devorando-o completamente. Em O Vendedor de Passados, conhecemos a história de Félix Ventura, o albino que vende passados e cujo melhor amigo é um pequeno lagarto que se esconde nas paredes de casa. A certa altura, um dos passados vendidos chega novamente ao presente e é necessário desvendar um mistério, não sem antes passarmos por várias sátiras, sarcasmo constante e uma sinfonia na escrita que parece típica da literatura africana, com uma facilidade em deixar-nos em casa, qualquer que seja a história. 


a minha edição d'Os Maias é muito velhinha: já pertenceu à minha mãe, à minha tia e agora a mim! ❤

5. Os Maias (1888), Eça de Queirós

Não, não estou a encher a lista só porque sim. Não, não estou algo tresloucada. Considero Os Maias um dos melhores romances da literatura portuguesa! Em pleno século XIX, temos o primeiro embrião do que são agora as novelas actuais da TVI e da SIC, o que para mim mostra o génio que há dentro de Eça de Queirós. Vá, agora falando a sério... Há certas temáticas que, quando estudadas e vistas através da perspectiva de um académico, têm que ser valorizadas como as obras-primas que são. Este livro é sem dúvida uma delas. Sim, o primeiro capítulo é aborrecido como o catano, mas quando passamos para o enredo do livro ficamos viciados (eu pelo menos fiquei!). E o trágico incesto, parece que consigo imaginar a polémica que esta história deve ter causado em 1888 na sociedade portuguesa! Para além do mais, a genialidade mantém-se: também já li O Crime do Padre Amaro (1875) e é tão bom quanto Os Maias.

***

Estes são apenas alguns dos meus amores portugueses e/ou luso-descendentes. Adoro a nossa poesia, o nosso teatro, tal como adoro a poesia africana e brasileira. Talvez o verdadeiro encanto seja esta nossa língua portuguesa, mas a verdade é que morro de amores pelo que é nosso, continuando a achar vivamente que ainda não li nem um terço daquilo que é apaixonadamente português. 

Reformulando a questão final, por forma a chegar a todos os cantos: 


Quais são os vossos livros favoritos da língua portuguesa? Já leram alguns dos que foram mencionados? 

6 comentários

  1. Excetuando os Maias, que também gostei bastante, não li nenhum dos outros que mencionaste, mas estão na lista de leituras que quero fazer :)

    Sou fascinada pela escrita de Miguel Esteves Cardoso, Miguel Sousa Tavares, Daniel Oliveira, Sophia de Mello Breyner Andresen e Margarida Rebelo Pinto. Além destes autores, adorei, por exemplo, A Desumanização [Valter Hugo Mãe], A Vida num Sopro [José Rodrigues dos Santos], O Tempo dos Amores Perfeitos [Tiago Rebelo], Os Cavaleiros de São João Baptista [Domingos Amaral] e Não Nos Roubarão a Esperança [Júlio Magalhães].
    Portugal tem talento, e a literatura é mais um exemplo disso ♥

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Gosto de Miguel Esteves Cardoso e Miguel Sousa Tavares, adoro a poesia de Sophia mas não consigo gostar de Margarida Rebelo Pinto. Para além disso, quero muito ler as obras de Valter Hugo Mãe e conhecer o burburinho que existe em torno de José Rodrigues dos Santos. Ainda tenho tanto para conhecer da literatura portuguesa mas não duvido do talento que o nosso país tem, não só na literatura, mas em muito mais!

      Eliminar
  2. Li os Maias na altura do secundário e fui a única pessoa que o terminou! Confesso que não tinha maturidade na altura para perceber que tipo de livro estava a ler Tenho o Ensaio sobre a Cegueira do Saramago e nunca tive coragem de o ler; a minha mãe leu o Caim e odiou-o (à falta de melhora palavra). Eu gosto muito do Amor de Perdição do Camilo Castelo Branco e daqueles livros de infância da Sophia de Mello Breyner. Remontam-me a tempos muito felizes.
    Por onde anda a Sofia?-Instagram

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ler Saramago é uma experiência diferente. Comigo foi: primeiro odiei, depois descobri, agora adoro. Ensaio sobre a Cegueira é uma distopia incrível, estudei-a para Literatura Comparada e foi também uma das minhas obras favoritas de Saramago. Em relação a Camilo Castelo Branco, não consigo gostar. Detestei o Amor de Perdição. E Sophia de Mello Breyner, muito para além dos livros de infância, que foram maravilhosos, tem uma poesia do outro mundo :)

      Eliminar
  3. E agora fiquei com vontade de ler Afonso Cruz, quero saber ao que se deve a preferência :p
    Arriscaria dizer que Saramago é o meu autor favorito. Adoro todos os livros que já li dele - e esse é particularmente bom. Acho que é capaz de usar ferramentas tão simples para nos fazer pensar que se torna absolutamente genial. E também adoro os Maias :p
    PS: Aquele Short Movies é do caraças!

    Jiji

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Oh, Joana! Afonso Cruz é mesmo de outro mundo. Cada livro que li dele é absolutamente delicioso. É preciso ler para entender! Sugiro-te, para além de "Os Livros que Devoraram o meu Pai", "Para onde Vão os Guarda-Chuvas" e "Vamos Comprar um Poeta" (também pequenino, mas lindíssimo!). :)

      Eliminar

Latest Instagrams

© by the library. Design by FCD.