22.2.18

Ler salvou a minha vida e pode salvar a tua também



Eu sei que o povo que me está a ler fica certamente a pensar que sou um poço de dramatismo, mas não há nada mais verdadeiro do que afirmar que os livros salvaram a minha vida, construindo a pessoa que sou hoje. A literatura devia ser algo obrigatório no dia-a-dia de toda a gente, não apenas pelos benefícios que nos traz, mas principalmente pelas lições que nos dá quando estamos a precisar de um ombro amigo, nem que seja fictício. O melhor de tudo? Pode vos ajudar também, se quiserem.


Já vos tinha falado aqui que o género da fantasia é o meu predilecto, tendo marcado a minha infância e adolescência até aos dias de hoje. Também vos contei que a saga Eragon (2002-2011), de Christopher Paolini, foi o meu grande amor quando era mais nova, passando a sonhar com voar nas costas de um dragão e conhecer o mundo assim, de forma mágica. 

À medida que fui crescendo, no entanto, comecei a olhar para a escrita de Paolini como uma escritora olha para um trabalho prático. Paolini começou a escrever quando ainda era menor de idade e as metáforas que utilizava, as descrições lindíssimas que fazia para nos falar de um mundo criado completamente do zero, com direito a uma língua específica inventada por ele... Tudo isso me cortou a respiração. Comecei a acreditar que, se quisesse, conseguiria inventar um novo mundo tal e qual como ele. Deu-me uma espécie de motivação para continuar a acreditar que poderia, um dia, vir a ser escritora.

E, de um dia para o outro, já não sonhava apenas com voar nas costas de um dragão. De repente, eu própria escrevia e escrevia e escrevia e estava, de facto, nas costas de um dragão. Num mundo ficcional criado por mim. 



Por volta dos meus 17-18 anos, uma das minhas piores fases de auto-estima, encontrei o Comer, Orar, Amar (2006), de Elizabeth Gilbert, e foi daqueles livros que nos mudam a vida e aquecem o coração. Embora numa situação completamente diferente, estando a lidar com um divórcio e numa espécie de crise de meia idade, Elizabeth mexeu muito comigo porque agarrou em si mesma e partiu numa viagem à descoberta dela mesma, aprendendo a amar-se e valorizar-se, quando nunca o conseguiu depois de anos a viver a mesma vida monótona de sempre. 

E eu, na insignificância dos meus 17 anos, pensei muito nesta magia do amor próprio e cheguei à conclusão que todos os dias iria lutar como Elizabeth lutou. Está bem, não iria ter a oportunidade de visitar três países diferentes e conhecer pessoas um pouco por todo o mundo, mas iria ter a minha própria caminhada em direcção à descoberta de quem sou. De alguma forma, este livro e esta escritora inspiraram-me e ajudaram-me a ultrapassar uma fase muito negativa. Salvaram-me. 

Se me interromperem para me perguntar se foram só os livros que me ajudaram nestas etapas da minha adolescência, eu vou responder claro que não. Tive o apoio incondicional da família, dos amigos e até do meu namorado. Mas os livros? Os livros foram e sempre serão aqueles companheiros discretos, a quem nos dirigimos quando não nos apetece lidar com pessoas, quando não nos apetece lidar imediatamente com os nossos problemas, e que nos escondem da realidade o tempo suficiente para digerirmos o que está mal e pensarmos: "okay, está na hora de resolvermos isto".

Em dias particularmente maus, enrolei-me numa bolinha, com uma boa manta, e li as várias distopias de young adult onde jovens mulheres revolucionavam o mundo. Senti-me forte como a Katniss, inteligente como a Hermione, corajosa como a Tris e poderosa como a Clary. Aprendi sobre a tirania, a injustiça, o poder da revolução e a força do amor. Ganhei forças através destas sagas e histórias do fantástico, de ficção científica, ao ponto de conseguir respirar fundo e perceber que estava pronta para enfrentar tudo e mais alguma coisa. Exactamente como elas.

***

Para vocês, leitores que duvidam dos poderes da literatura. Ou para bookworms como eu, eternos apaixonados pelo mundo da ficção. Não é infantilidade admitir que os livros, em algum momento, foram os nossos melhores amigos. Também não é desfasado dizer que a ficção nos ajuda a enfrentar a realidade, porque ajuda sempre. Tenho a certeza que, em algum ponto das vossas vidas,  houve uma história que nos marcou o coração, algo que ficou para sempre registado como a história.

Se a vossa história veio de um filme, convido-vos a experimentarem ler o livro primeiro. Porque o livro dá-nos a imaginação, o mundo criado pela nossa cabeça, a primeira impressão que acaba por ser apagada através de um filme ou de uma série (e eu adoro adaptações cinematográficas, atenção). E, acima de tudo, se duvidam desta heroína que se chama literatura, acreditem que o livro que vos vai salvar ainda está à vossa espera. Há livros para todos, livros capazes de mudar tudo, livros que nos derretem o coração e livros que nos dão a força e a motivação para sermos mais e melhor. 

É só uma questão de os irem procurar, tal como eu fui procurar os meus.

27 comments

  1. É incrível o poder que um livro pode ter! As histórias que guarda no interior são sempre mais do que aquilo que aparentam ser, porque dependerão sempre da interpretação de quem as ler e da altura em que o fizer.
    Pessoalmente, também acho que os livros nos salvam, porque acompanham a nossa jornada, fazem-nos colocar as coisas de outra perspetiva e, principalmente, acabam por nos mostrar que nunca estamos verdadeiramente sozinhos.
    Quando lemos, entramos numa bolha que nos esconde da realidade. E, muitas vezes, acabamos por encontrar as soluções que procurávamos.

    Que texto inspirador!

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    1. É exactamente assim que me sinto, Andreia! Como se tivesse a oportunidade de fugir, não para me esconder dos problemas, mas para reflectir neles através e com a literatura. São uma espécie de escape que nos permite, pela ficção, ver a realidade com mais sanidade. E não sei o que seria de mim se não lesse! Muito obrigada <3

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    2. «(...) fugir, não para me esconder dos problemas, mas para reflectir neles através e com a literatura», não descreveria melhor!
      Nem eu, minha querida, nem eu *.*

      Nada que agradecer <3

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  2. Subscrevo!

    Olho para as capas dos livros e lembro me sempre da fase da vida em que estava, e que mensagem tirei dali. "The Lord of The Rings" foi um que me ajudou muito, a história de valentia e de amizade deu me alento e coragem para passar uma fase má da vida. Harry Potter, vai ser sempre uma lembrança das saídas com a minha avó quando ela ainda me ia buscar à escola e depois de muito a chatear me deu o primeiro livro que eu li logo encolhida no sofá velho da sala, encantada como um rapaz que tudo lhe corria mal, a magia o encontrou.

    E este ano, este ano tem me ajudado muito com a ansiedade.
    Sim, os livros curam a alma, das coisas mais difíceis de curar.

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    1. Os livros também me ajudaram muito com a minha ansiedade. Tem sido um companheirismo de auto-ajuda incrível. Sinto que a literatura me ajudou nas fases mais negras da minha vida, e só tenho a agradecer à minha família por me ter fomentado o gosto pela leitura desde pequenina :)

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  3. Adore este texto :)
    Não me lembro de algum livro que me tenha "salvo" numa altura particular, mas sei de várias leituras que moldaram a minha personalidade e maneira de pensar. É a melhor forma que conheço de estar na pele de outra pessoa e "ver" o mundo aos seus olhos.

    Beijinhos!

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    1. Obrigada Catarina! Qualquer livro nos ajuda, seja num gesto de salvação, socorrendo-nos nas alturas em que mais precisamos, seja ao oferecer-nos perspectivas diferentes que acabam, de uma maneira ou de outra, por moldar a nossa personalidade e pontos de vista :)

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  4. Tenho o coração a palpitar com este texto, Sónia, não tens noção! Talvez por me identificar tanto com a mensagem que tentas transmitir, talvez por me lembrar fases menos boas que passei e ultrapassei com toda esta magia a envolver-me que referes.
    Não posso dizer que foram os livros de fantasia que me salvaram, porque, li apenas duas sagas fictícias e mágicas a vida toda e uma delas ainda estou a acabar.
    De qualquer forma, os livros de Agatha Christie fizeram-me compreender que todos nós, até os estranhos intelectuais e os sociais, temos um lugar no mundo e que não era de todo estranho eu ter celulazinhas cinzentas em constante raciocínio e estimulação - vê lá! cheguei a achar-me estranha por pensar e raciocinar tanto, o que o bullying nos faz! -. Depois destas aventuras, foi a vez das Utopias me trazerem ar fresco e me ensinarem a respirar de outra forma: ali estavam eles, os livros que estimulavam tanto a minha parte intelectual e curiosa.
    Como te compreendo, Sónia. Os livros, qualquer tipo, têm poderes mágicos mais fortes que o comum dos mortais se apercebe!

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    1. Adorei, adorei, adorei este comentário! Joaninha, como te entendo! E adorei saber que foi a Agatha Christie e as utopias que te ajudaram, como a fantasia me ajudou a mim. No teu caso, a literatura ajudou-te a entender que não eras estranha por raciocinares tanto e ajudou-te a acreditares em ti mesma. Concordo completamente contigo e ainda bem que te ajudaram tanto como a mim <3 :D

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    2. Sim, é tão bonito pensar, olhar para trás e encarar os livros desta forma. Mil obrigadas por isto, Sónia. 💛

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    3. Obrigada eu pelas tuas palavras, Joana! Encheste-me o coração ❤

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  5. O título que deste ao post pode parecer dramático para muitas pessoas, mas o meu inconsciente começou logo a gritar " Também salvou a minha vida!". É mesmo verdade, os livros têm um poder subtil que só os verdadeiros booklovers entendem.
    Quando eu tinha 16 anos, a minha mãe foi internada durante 3 meses devido a uns problemas de coração, e foi a pior fase da minha vida. Ao início, a minha família protegeu-me e eu não me apercebi logo da verdadeira gravidade do coração, mas quando me apercebi, vivia numa aflição constante. Claro que nessa altura o apoio das pessoas foi fundamental, mas foi os livros que me ajudaram a ultrapassar esta situação tão dificil. Foi nessa altura que li o " The Hunger Games", e ler essa saga deu-me coragem para continuar a lutar pelos meus objetivos, apesar de a minha vida pessoal estar a desabar, e a apoiar a minha mãe da melhor forma possível.
    Que texto inspirador, e que já gerou muitas partilhas de histórias pelo que já li nos comentários :).
    Beijinhos,
    Cherry
    Blog: Life of Cherry

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    1. Oh, Cherry. Percebo perfeitamente pelo que passaste. É nestas histórias que conseguimos ver o verdadeiro poder da literatura! Claro que tiveste o apoio incondicional da tua família, mas a força que os livros da Katniss te deram deve ter ajudado bastante também :)

      Obrigada pelas tuas palavras <3

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  6. Que texto incrível.
    Adoro ler, adoro imaginar todo um cenário na minha cabeça e sentir-me como se eu fosse a personagem. A literatura leva-nos para outros mundos.
    Embora não consiga dizer que ler salvou a minha vida, acredito que tenha interferência nas vidas de algumas pessoas e ainda bem, assim ajudam a seguir em frente e a acreditar, muitas vezes.

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  7. r: Agradeço imenso por essas palavras! Fico de coração cheio <3
    A culpa é da história maravilhosa do livro :)

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  8. Mas não é que eu fico completamente rendida à tua escrita? É impressionante!! :))

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    1. Ohhhh, obrigada! A sério, do fundo do meu coração ❤

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  9. Lindo! Parabéns pelo que conseguiste transmitir. :) Pessoas (como eu) a quem os livros já salvaram a vida :) revêem-se no teu texto...

    O poder da palavra é imenso, sem dúvida!
    Beijinho,
    https://anaritaferreira83.blogspot.pt/

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  10. Gostei tanto de ler este post! Só o título deixou-me imediatamente cativada, não por ter achado qualquer dramatismo, mas porque para uma bookworm como eu revejo-me completamente.
    Ler preenche-nos o coração trazendo felicidade e ao mesmo tempo apoio quando mais precisamos dele. Sempre que reflito acerca do que ler significa para mim fico pasmada com todas as emoções que me despertou e todas as vidas que senti já ter vivido através dos livros.
    Sinto que o Harry Potter (que é sem dúvida alguma a minha saga preferida e de coração) me fez viver aventuras fantásticas ao mesmo tempo que aprendi lições importantíssimas de vida :)
    Desde sempre e para sempre que os livros fazem parte de mim*

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    1. Obrigada por este comentário! Obrigada pelas tuas palavras :)
      Concordo em pleno contigo. Mundos novos que nos levam a outro lado, que nos ensinam imenso e são, ao mesmo tempo, os nossos melhores amigos! E "Harry Potter" também é uma das sagas do meu coração.

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  11. Uau. Simplesmente uau! Nem sei bem como me manifestar perante um relato tão belo, direto, cru e sincero. Não fosse outra amante de livros, e muito provavelmente não compreenderia o que aqui dizes... Mas enquanto a literatura fizer parte de mim, hei compreender sempre essa sensação de apoio, compreensão e interação entre os livros e eu. Muitos não confiam nestes relatos, mas a verdade é que a literatura tem um poder imenso sobre as nossas vidas, ajudando-nos em todas as ocasiões. Ora porque o stress e a ansiedade decidiram fazer das suas, ora porque estamos a atravessar os melhores itinerários das nossas vidas... Ler é um super-poder que muitos têm o privilégio de usar e faz tanta diferença quanto prestar auxílio, no quotidiano!
    Muito obrigada por isto, de verdade! Beijinho grande,

    LYNE, IMPERIUM

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  12. A-DO-REI ESTE POST! A sério! Atrevo-me a dizer que foi dos melhores posts que li nos últimos tempos!

    Também sou uma bookworm e sinto o mesmo que tu: os livros salvaram a minha vida. Eu era muito tímida e não me abria com ninguém. Com os livros comecei a sonhar e a querer ver o mundo, comecei a viajar sem sair de casa e isso atraiu pessoas semelhantes. Hoje não saio de casa sem um livro na mala.

    Ler salva vidas e, como dizes, devia ser algo obrigatório!

    Repito, gostei muito do post!! Ganhaste uma nova seguidora!
    Beijinhos, Brenda
    Momentos de Ataraxia

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  13. Oh meu deus! É tão bom encontrar uma pessoa que é tão apaixonada por livros quanto eu!
    Desde pequena que gosto muito de ler e devoro qualquer tipo de livros. Já tenho quase 22 anos e ainda me farto de rir a ler O Diário de um Banana e O Diário de uma Tótó, por isso imagina...!
    No entanto, acho que, em toda a minha vida, não houve um livro especifico que me tenha salvo a vida, mas sim um cem número deles. É nos livros, é noutros mundos, na pele de outras pessoas, que gosto de me refugiar quando estou mais em baixo, quando me sinto mais ansiosa ou mais negativa. Por isso, para mim, ler não é muito um salva vidas, é mais um processo terapêutico, ou melhor, uma fuga à selva que é o mundo real.
    Gostei mesmo muito do post!
    Beijinhos.
    Este é o meu cantinho:
    https://daisys16.blogspot.pt/

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  14. Vi este post no blog Life of Cherry e tive mesmo de cá vir, visto que mencionaste por lá que tinhas lido o meu post. Então, concordei com todos os pontos que referiste. Os livros e a leitura em geral, consegue melhorar imenso a nossa autoestima e são mesmo a melhor companhia quando não querermos conversar ou até desabafar com alguém. Algo diferente que fiz, quando estava com depressão e na crise de autoestima foi escrever. Escrevi IMENSO. Todos os dias só o fazia e desse jeito, expulsava muitas vezes a raiva, medo e ódio que sentia. Literalmente, desabafava com os dedos. Já me recomendaram o Comer, Orar e Amar e confesso que cada vez mais estou curiosa, embora nunca tenha dado atenção ao filme (achei enfadonho e não passei dos primeiros minutos do mesmo), como deveria. Adorei este post! Não conhecia o teu cantinho, mas já adoro muito! Possivelmente, entrarei depois em contato para falar-te de uma possível parceria envolvendo os livros. Beijinhos, minha querida!

    https://www.carolinafranco.pt

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    1. Oh, Carolina! Sinto que partilhamos experiências semelhantes. Também, como tu, escrevia imenso, eram as minhas duas companhias: a escrita e os livros. Agora, na fase de depressão que estou a passar de momento, mais grave do que as crises de auto-estima que tinha quando era mais nova, mantenho-me firme ao dizer que tanto a leitura como a escrita continuam a salvar-me todos os dias. São melhores amigas e, ao mesmo tempo, terapia também!

      Em relação ao "Comer, Orar e Amar", se achaste o filme enfadonho, talvez não venhas a gostar muito do livro. Sei que é o tipo de livro que ou se adora, ou se odeia. Ainda assim, foi um livro que me fez falta na altura e que se calhar hoje não teria o mesmo impacto. Acho que depende muito da pessoa que o lê, mas aconselho na mesma a experimentares lê-lo :)

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