28.11.17

Fantasia... Um Amor Até aos 90 Anos



Lembro-me como se fosse ontem: a expectativa, o coração a bater rápido à medida que a hora de abrir os presentes se aproximava. Nunca era realmente à meia-noite, porque ninguém aguentava até essa hora, principalmente com as minhas perguntas incessantes. Os Natais passaram a ser diferentes depois de receber o primeiro livro - já sabia que nesse pacote cuidadosamente embrulhado da Bertrand encontrava-se a minha próxima aventura. O meu primeiro amor no género fantástico.




Ao contrário do que muitos possam pensar, Harry Potter não foi a minha leitura de infância. Todos nós temos uma, suponho. Para muitos eram os livros da Nancy Drew de Edward Stratemeyer ou Os Cinco de Enyd Blyton (uma leitura que alegrou os meus dias de infância, que adorei ler e devorei mais do que uma vez) e, para grande parte da minha geração, a maravilhosa saga de J. K. Rowling. Aqui em casa nunca ninguém me comprou os livros do Harry Potter naquela altura certa que nos faz dizer "ah, sim! Os livros que me encheram o coração em miúda". Não foi por nenhuma razão em especial, simplesmente aconteceu. Por incrível que pareça, considero Harry Potter a saga da minha adolescência, a saga que procurei sozinha e que, com uma maturidade diferente, fez-me gostar à minha maneira da história, de Harry e dos seus amigos, da sua vida mágica. Mas até lá chegar, passei por outras histórias primeiro. Houve uma em particular, a que se tornou no meu primeiro amor. 

Eragon, de Christopher Paolini. A minha primeira saga do fantástico. 

O meu padrinho ofereceu-me o primeiro livro e continuou até ao último. Passou a ser uma tradição dele, nossa, durante muitos anos: enquanto amigos meus podiam esperar roupa, dinheiro, jogos, eu esperava, de coração a bater forte no peito, pelos livros que já sabia que me ia oferecer. Tinha-lhes um carinho maior e mais profundo do que todas as prendas que recebia: para mim não havia (e ainda não há) nada melhor do que alguém oferecer-me livros. 

A história sobre o pequeno rapaz que descobriu um ovo de dragão e arranjou uma melhor amiga,  o dragão Saphira, foi das melhores coisas que me aconteceu. Eu viajava com Eragon pelas terras desertas que Paolini inventara, com a forma como ele acompanhou o pequeno dragão, uma raça que se considerava extinta, durante todo o processo à sua fase adulta. Entusiasmava-me com as histórias de magia, a forma como o seu poder evoluía e como se tornava uma personagem forte, vital, importante. Sonhava ser como Eragon e voar no cimo de um dragão. Sonhava ter a ligação que eles os dois tinham, onde as suas mentes estavam interligadas, onde conversavam intimamente a toda a hora. 

O último livro da saga, Herança, só saiu em 2011, quando tinha 16 anos. Já tinha terminado o terceiro livro há sensivelmente dois, três anos e aguardava fervorosamente por o grandioso fim. E se acham que a leitura foi diferente aos 16, quando supostamente já tinha mudado os meus gostos, estão muito enganados. Eragon modelou a forma como vi a literatura desde muito cedo e o último livro foi tão maravilhoso ou ainda melhor que o primeiro. Chorei e deliciei-me depois de reler por uma segunda vez os três primeiros livros para me lembrar de tudo ao pormenor e aproveitar ao máximo o quarto livro.


Foi através de Paolini que aprendi a amar o género do fantástico, amor esse que perdura até aos dias de hoje.



Quando olho para a minha estante no quarto, sei que 80% dos meus livros são de fantasia. Essa noção faz-me sorrir que nem uma tola ao aperceber-me que sou, definitivamente, uma afirmada nerd. Daquelas que, se tivesse oportunidade, estava colada a convenções tipo Comic-Con a toda a hora. Porque durante todos estes anos, tudo o que tivesse magia me chamava a atenção. Comi tudo, literalmente tudo. Vampiros, lobisomens, dragões, elfos, feiticeiros, zombies, demónios. Através da fantasia descobri um novo amor que é a ficção científica, onde comi também aliens, naves espaciais, novos mundos, novas raças, portais intergaláticos, super-heróis de capa vermelha, super-heróis não tão super quanto isso, e toda uma série de novas aventuras que me fizeram sonhar. 

Sim, o mundo fantástico fez-me sonhar. O meu namorado vive para me dizer que estou constantemente a sonhar. Mas não consigo evitá-lo. Sou escritora na minha alma e vivi agarrada aos livros, entre páginas e páginas onde interagi e relacionei-me com personagens de histórias que para sempre vão ficar no meu coração. 

O meu Eragon deu-me asas para ver o horizonte como se estivesse em cima da Saphira, a voar. Hogwarts deu-me a noção de que existe amor e esperança no meio de todo o negro e desespero das nossas vidas, se soubermos tomar atenção. Por estranho que pareça, os vampiros e os lobisomens e todas as criaturas que foram romantizadas neste século, depois de serem vistas como monstros em séculos passados, ensinaram-me que existe mais para além daquilo que vemos superficialmente, que há algo bom em toda a gente, se o procurarmos. E os aliens, as naves espaciais, os novos mundos inventados para lá dos pontos brancos que vemos à noite no céu estrelado... Esses ensinaram-me a lutar por mais. A querer sempre inovar, renovar, crescer e ficar maior, maior, maior. Seja ser maior a ler um livro particularmente difícil ou a ir até à lua. Sem nunca, nunca desistir. 

Imagino-me a ler fantasia até aos anos 90 porque me imagino sempre como alguém que não vai querer desistir de sonhar, viajar, ter planos. E a fantasia não é um género dedicado apenas aos nerds adolescentes que sonham com super-poderes. A fantasia é uma realidade melhorada daquilo que vivemos no dia-a-dia. É a forma de, através da magia ou da ciência avançada do século 53, nos apercebermos que se calhar não é assim tão mau o mundo onde vivemos. E também que temos de lhe dar valor - imaginem que acaba tudo com um super-vilão capaz de destruir o planeta como quem mata uma formiga? 😝

Cada história nova me faz lembrar a primeira vez que recebi o Eragon. E embora tenha aprendido a gostar e valorizar outros livros, noutros géneros - algo que a universidade me ofereceu gentilmente - tenho a certeza que as minhas estantes vão sempre ter, na sua grande maioria, fantasia. E consigo sonhar e imaginar os meus filhos com uma imaginação tão fértil e uma infância tão cheia de aventuras como foi a minha. 

Mesmo sendo filha única, nunca estive realmente sozinha. 

8 comments

  1. A magia dos livros é mesmo essa, retirar-nos da nossa realidade, fazer-nos viajar no tempo e permitir-nos sonhar. Independentemente do estilo. Claro que, naturalmente, isso acontece mais depressa quando estamos a ler o nosso registo favorito. E isso é maravilhoso *.*

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  2. essa mesmo a magia dos livros! levar-nos para um outro mundo, uma outra realidade! adoro ler por causa disso! só tenho um problema: quando estou a ler um livro que gosto fico tão perdida e leio o livro sempre super rapido, demasiado rapido até! e depois fico mega triste quando o livro acaba xD

    adorei o teu blog! ja estou a seguir! gostava muito que me seguisses também! beijinho
    TheNotSoGirlyGirl // Instagram // Facebook

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    1. Também sofro desse mal. Leio muito depressa e, quando gosto deles, ainda mais depressa leio. As histórias terminam demasiado depressa e depois fico uns dias deprimida, ahah :)

      Obrigada <3

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  3. Maravilhoso! Gosto muito de fantasia, mas nunca arrisquei em Eragon. No entanto percebi perfeitamente todo o amor presente nas tuas palavras, pois é exactamente o que sinto em relação aos livros :)

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    1. É um amor único, este que sentimos pela literatura. E eu, em especial, sinto isso quando pego num livro de fantasia. E Eragon é mesmo muito bom. Na altura em que o comecei a ler achei o autor um génio, pois inventou um continente novo, uma língua nova e todo um universo aos 19 anos que me deixou boquiaberta. :)

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  4. Nunca li Eragon, mas partilho a paixão pela leitura desde infância, em especial por Harry Potter :) Ando curiosa pelo Eragon há algum tempo, e talvez esteja na altura de experimentar!

    //Daniela

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    1. Pessoalmente, adorei Eragon. Acho que o meu texto diz mesmo tudo, não é? :)
      É uma saga que para sempre vai ficar no meu coração. Espero que se alguma vez leres os livros, possas partilhar um pouco desse amor como eu <3

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