12.10.17

quando as pessoas te subestimarem, deixa que o façam


Estou habituada às pessoas que me olham e dizem que não sou alguém com capacidade para ser mais e melhor. Quer seja por ser rapariga, ou porque não me dou ao trabalho de esconder que não estou particularmente interessada em ser snob, toda a gente adora dizer como talvez não venha a ser tão bem sucedida como penso, falando de uma forma geral. 

Sabem o que é normalmente faço nesses casos? Sorrio. Mantenho-me calada. E espero. 



Quando eu ainda estava na universidade a tirar a minha licenciatura em Literatura, nem sei bem como acabei por me dar com um grupo de pessoas que era conhecido pela sua cultura em relação a tudo. Infelizmente, descobri depressa que isso não era sinónimo de tentar aceitar outros que, por diversas razões, não eram tão instruídos quanto eles. Eu sei que existem grupos similares a este em todo o lado, sabem? Mas eu sinto que nas artes, principalmente se estivermos a falar a nível académico, acabamos por vê-los muito mais. Eu sentia-me deslocada nesse grupo, sem compreender como fui lá parar em primeiro lugar. Pensei que, assim que entrasse para a universidade iria finalmente enquadrar-me, depois de aprender na escola secundária que muitas pessoas viam uma apaixonada por livros como algo não muito interessante.

Foi inocente da minha parte, eu sei.

Eu sempre adorei ler e a literatura sempre foi a minha grande paixão, mas os meus géneros favoritos são young adult e fantasia. Descobri grande parte dos grandes nomes da literatura nas minhas aulas, enquanto que outras pessoas já os conheciam desde a secundária. Nunca tinha lido Shakespeare antes e só fiquei a saber de nomes como George Orwell, Lev Tolstoi ou Edgar Allan Poe quando começámos a falar sobre eles em aula. Nunca pensei que isso fosse algo mau; o propósito da escola é ensinar-nos coisas novas e eu gostei de descobrir os clássicos e um novo lado da literatura que nunca quis saber quando era mais nova. E enquanto isso não me chateava particularmente, sempre me senti culpada por gostar mais do meu "Harry Potter" e de "The Mortal Instruments" do que "1984" ou "O Livro do Desassossego" de Fernando Pessoa.

Com a música aconteceu exactamente a mesma coisa. Adoro ouvir música, mas não sou obcecada com isso e posso dizer que oiço de tudo um pouco. Quando tinha 14-16 anos, tive a minha fase de Def Leppard, Alice in Chains e Led Zeppelin, e tive mais tarde uma altura onde só ouvia Bon Iver e Alt-J. Mas muito mais do que ouvir, eu adoro desalmadamente dançar. Está na minha natureza gostar de uma música por causa do seu ritmo, mesmo quando sei que é considerada, bem, uma música merdosa. Kizomba, kuduro e Pop são exemplos de géneros que têm músicas merdosas que eu adoro porque, lá está, adoro dançar. E existe muito preconceito quando falamos de música, não apenas entre grupos elitistas como aquele com quem andei na universidade, mas até mesmo entre amigos que ouvem coisas diferentes. 

Até mesmo eu faço isso às vezes, e sei que nessas vezes também sou merdosa.


AS PESSOAS VÃO SER SEMPRE MERDOSAS: DEIXA QUE O SEJAM, TAMBÉM


Depois da experiência que tive com estas pessoas na universidade - que não acabou muito bem, tenho que dizer - eu sei que não posso esperar que as pessoas parem de ser merdosas. 

O snobismo vai sempre fazer parte do mundo e vai ser sempre assim. Não me importo com isso, desde que as pessoas parem de tentar rebaixar-me pelo meu gosto literário, musical e tudo o mais. Isso foi algo que aprendi da forma mais difícil. 

Na nossa família, temos um casal amigo que emigrou para os EUA há uns anos atrás. Recentemente, mandaram-nos uma encomenda enorme com coisas americanas e, no meio disso tudo, estava uma edição de 1986 do Moby Dick, de Herman Melville, para mim. Esta semana, decidi começar a lê-lo e estava tão entusiasmada que o anunciei aos meus amigos. Houve uma pessoa, que estava connosco, que basicamente me disse que eu não era boa o suficiente para ler o livro. Disse-me que provavelmente desistira do livro passadas 100 páginas e que, mesmo que lesse tudo até ao fim, provavelmente nunca chegaria a entendê-lo. 

Sim, isto aconteceu. 

E, de repente, senti que estava outra vez com aquele grupo elitista, constantemente apologética porque sentia que não era boa o suficiente para ler determinados livros ou ouvir determinada música. 

Meu Deus, como odeio gente pretensiosa

Como odeio pessoas que tentam sentir-se melhor consigo mesmos ao reduzir outras pessoas com os seus gostos e paixões. 


Vocês sabem o que eu fiz com essa pessoa? Deixei-a falar. Fechei a minha boca. Nem sequer me dei ao trabalho de dizer que sou a porra de uma licenciada em literatura, especializada em literatura e artes. Nem sequer me dei ao trabalho de dizer que não conhecia metade dos autores e livros que me ensinaram nas aulas, mas que os li, que me apaixonei por eles e acabei por ser uma óptima aluna na minha turma. Não me dei ao trabalho de dizer o quanto sou boa, merecedora até de Homero se eu assim o quiser. Oh, não. Em vez disso, permaneci calada e simplesmente sorri.

Há algo muito melhor e mais gratificante ao tentar convencer alguém que somos merecedores de algo. E fazemos isso ao prová-lo. Seja através de um livro estúpido ou de conquistas para uma vida inteira.

Razão pela qual vos digo para deixarem que as pessoas vos subestimem. Podem provar que estão erradas mais tarde.

4 comments

  1. Andreia Morais12/10/2017, 22:11

    «Meu Deus, como odeio gente pretensiosa», somos duas! Esta atitude de que elas é que são incríveis, que sabem tudo e que estão aptas a qualquer desafio tira-me do sério. Mas também aprendi que o melhor mesmo é deixá-las falar, que sejam felizes assim, pode ser que um dia tenham uma surpresa

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  2. Gosto tanto dessa atitude! E concordo com tudo =) Potterhead through and through! 😉

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  3. #preach
    Como compreendo! Quantas bocas tive de levar por gostar de livros de “vampiros e lobisomens” ainda recentemente porque li o twilight! Agora o YA que leio nada tem a ver com isso mas mesmo que tivesse não entendo qual é o problema de se gostar livros de vampiros e lobisomens em vez de ter que se ler constantemente poesia só porque sim!

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  4. thedailymiacis14/10/2017, 16:34

    Li este texto e revi me em tanta parte. Principalmente na parte do que leio ou jogo ou coleciono ou faço ser considerado "infantilidade" e "nunca vou crescer". Eu sorrio e aceno, não só pelo que referiste mas porque também tenho pena. Tenho pena dos outros que são só mais uma ovelha no rebanho. Podemos ser as ovelhas negras mas de certeza que somos as mais bonitas :) vou partilhar na pagina do meu blog. Beijinhos

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