31.10.17

Admitir que estamos mal é o nosso super-poder



Deixem-me falar-vos sobre Feyre Archeron, a personagem principal da última saga de literatura fantástica que ando a ler, A Court of Thorns and Roses (2015), por Sarah J. Maas. Feyre é uma humana que acaba na corte de Tamlin, um fae poderoso que a resgata de uma situação de pobreza e fome constante. O primeiro livro da saga mostra-nos uma Feyre que aprende a viver fora da vivência precária que teve antes de conhecer Tamlin que, por seu lado, dedica toda a sua atenção e dedicação a abrir os horizontes de Feyre quando estes lhe foram cortados desde muito cedo. Em Tamlin, Feyre conheceu não só um novo amor, como também um ser que queria saber dela, dando-lhe a atenção e protecção que ela sempre desejou. 



No meio de batalhas, intrigas, assassínios e outras aventuras típicas de um livro de fantasia, Feyre morre e e ressuscitada como fae. Mais poderosa, imortal, finalmente livre de todos problemas por que teve de passar - mas com um trauma notável, uma constante lembrança de tudo o que sofreu. Aos poucos, Feyre vai emagrecendo, desaparecendo no meio de uma depressão profunda. E Tamlin, em vez de a ajudar, aprisiona-a na sua própria depressão, cortando-lhe as asas e impossibilitando-a de respirar, de curar todas as suas feridas. 

No segundo livro da saga, após um evento traumático que a deixou em pânico, Feyre explode. Feyre grita. Feyre pára no tempo e a única coisa que se vê, que se nota, que se sente, é essa explosão. 

Enquanto lia esta saga, pensava nas minhas próprias semelhanças com esta personagem tão forte, tão representativa da força que tantas outras pessoas carregam em situações de trauma, de depressão. Apercebi-me que a explosão dela foi uma reacção ao aprisionamento que fez do seu próprio corpo e mente durante tanto tempo. Inibindo-se da falar, de sentir, depois de tanto tempo a reviver aquilo que a magoava, aquilo que a fazia sentir-se assim. Explosiva. 


Admiti finalmente o quão vazia me sentia depois de muitas mini-explosões.


Sinto que devia ter usado este paralelismo com uma personagem literária, se não para vos fazer entender melhor o que anda a passar-se cá dentro, para pelo menos dar-me alento a começar este texto. Ainda preciso desse alento, fazendo esta transição entre ficção e realidade: a minha realidade. 

Já há algum tempo que me sinto a cair em espiral, como a Feyre. A fechar-me numa redoma, não de vidro, mas de um aço inquebrável que me impede de sair para fora - e dos outros entrarem. Acima de tudo, tenho sentido várias mini-explosões a acontecerem dentro de mim. Pequenos momentos onde me permito abrir uma janela para fora e, depois de tanto tempo fechada em mim mesma, sai uma ventania de fúria e de dor cá dentro que abala as pessoas à minha volta. 

Explosões cada vez mais fortes. Explosões que cada vez mais magoam quem gosta de mim.

Quando cheguei junto da minha mãe e lhe implorei para ir a um psicólogo não foi difícil dizê-lo. Para mim, foi sim difícil admitir que não estava bem, como se estivesse a expor um bocadinho demais dessa redoma que tanto me tem protegido. Mas consegui fazê-lo; dei um passo contra mim mesma, fui contra aquilo que a minha auto-protecção me tem pedido durante todo este tempo. Para não sair de longe de mim mesma. Para não voltar a mostrar quem realmente sou. Para não voltar a magoar alguém, seja pessoas próximas ou alguém distante, mesmo que indiferentes. 

Sugeriram-me psicoterapia, não apenas para curar estas mini-explosões mas para domar a minha ansiedade. E fui, com o coração nas mãos, a lutar contra todos os meus instintos que me diziam para ficar em casa, que me diziam que de alguma forma, um psicólogo ia olhar para dentro de mim e ver-me por aquilo que realmente sou. Uma pessoa má. Uma pessoa que não merece ser ouvida.


Aprendi que tenho depressão. E confirmei que sou a minha maior bully


A minha psicóloga não me fez um diagnóstico oficial. Não olhou para mim, como um médico olha para uma doença, e respondeu-me: "a Sónia tem depressão". Em vez disso olhou para mim e disse-me algo que nunca mais me vou esquecer:

A depressão não é uma identidade que vive dentro de nós.

E eu senti essa verdade dentro de mim: não um ser, mas mais como uma sensação que vai e vem, uma corrente que umas vezes fica e outras vezes afasta-se. Para além do mais, disse-me que via duas partes de mim que, neste momento, lutavam uma contra a outra e me deixavam assim. Cataclísmica. Numa silenciosa batalha contra mim mesma que, cada vez mais frequentemente, partia janelas e vidros e chegava ao mundo de fora. 

 Em A Court of Thorns and Roses, Feyre acaba com poderes especiais. Controla o fogo, a água, o gelo. Controla as trevas e a luz. Enquanto a conhecia através da escrita maravilhosa de Maas, sentia a necessidade de curar as partes mais negras de mim como ela: ao explodir em chamas, ao gelar os meus traumas e os meus pesadelos para longe de mim, para um lago obscuro e profundo para onde não tivesse que olhar mais. 

Não tenho poderes especiais. Não consigo fazer arder em chamas o que me dói, nem consigo transportar-me para Feyre como gostaria. 

Desde a primeira consulta, há sensivelmente um mês, que procuro espelhar o que sinto através da escrita. Porque a escrita sempre foi o meu grande dom, o meu poder de heroína - destruir os demónios através das palavras, ou procurar dizimá-los com a força de um texto após ser terminado, construído, artilhado. E procurei mostrá-lo à minha psicóloga, como queria escrever mas parecia estar bloqueada em mim mesma. Depressa percebi, com a ajuda incessante dela, que me estou a sabotar a mim mesma, com medo de falhar. 

Medo de ser mal interpretada. 
Medo de chegar alguém e magoar-me mais num espaço como este, o meu blogue, o meu safe haven. 

E percebi também que estou farta de me sabotar. Não quero mais. Talvez seja por isso que abordo este texto como os meus self love tales. Abrindo-me de forma ainda mais íntima do que quando escrevi os textos para o Beauty Beyond Size, falando sobre isto que é esta experiência que requer muito amor de mim para mim, reconstruíndo-me gradualmente. Dedicando-me a mim mesma, àquilo que sinto e aos meus próprios pesadelos e traumas.

É como Elizabeth Gilbert diz no seu livro A Grande Magia: ainda bem que a nossa escrita chega a algum lado. Mas que seja exclusivamente dedicada a nós mesmos, escritores. Que seja uma passagem que nós mesmos abrimos para nos atravessarmos, entregando-nos à escrita como nos devemos entregar à vida. E neste meu pesadelo de ser constantemente mal interpretada e de viver na sombra daquilo que podem achar da minha opinião, da minha escrita, tenho me bloqueado a mim mesma e ao meu super-poder: a palavra.

Bem, estou a lutar para que isso acabe de vez. 

Era uma vez a história de como voltei a gostar de mim mesma.

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