8.7.17

não gosto de mim, mas quero muito mudar isso


Acham contraditório eu começar um projecto sobre aceitação e auto-estima quando nem sequer consigo dizer em pleno que me aceito, que me amo por completo? Eu acho que é precisamente por isso que é um movimento tão importante.

É assim que, dentro do BEAUTY BEYOND SIZE, começo com este desabafo.
Sobre como não me amo, mas quero muito amar-me.



Desde sempre que ouço comentários negativos em relação ao meu corpo. Por causa disso, eu própria tornei-me na minha bully nº. 1. É difícil afastarmo-nos desta onda de negatividade quando são anos a ouvi-la constantemente. Começa com um comentário de um familiar, acaba com gente cruel e embriagada numa saída à noite e termina verdadeiramente comigo, em frente a um espelho, nas várias sessões de binge eating, numa prova de roupa que não me serve, no facto de por vezes não me sentir bonita nem sequer quando estou ao lado do meu namorado, na automática desistência cada vez que começo uma dieta por saber que não a vou conseguir cumprir. É um ciclo vicioso, constante, desgastante. É um ataque sucessivo a mim mesma. 

Here's the thing, folks: nunca precisei que me mostrassem que tenho excesso de peso. Algumas pessoas, quando se sentem bem com elas próprias (ou não), tendem a esquecer-se o quão catastrófico pode ser um comentário que, na mente delas, vem por bem. Melhor do que ninguém, eu sei os erros que cometo, o corpo que tenho, o quão longe estou de ser saudável. Isto aplica-se a toda gente, by the way. Se vão dizer a alguém "estás tão magrinha, filha", não lhe vão dar nenhuma novidade; vão estar simplesmente a acrescentar comentários à teia dessa pessoa, se ela estiver mais em baixo, como eu.



I FOUGHT MY BATTLES. I DESERVE TO LOVE MYSELF

Apesar de não gostar do meu corpo, tenho muito orgulho em mim mesma. Acho que isso é uma manifestação de amor, não é? Vou contar-vos algo que nunca disse aqui. O meu pai nunca esteve presente na minha vida. Sempre existi eu, a minha mãe, os meus avós, a minha tia. E fui uma criança muito feliz. Mas, no outro dia, ouvi alguém contar uma história sobre como é não ter um pai presente, e foi algo como "é estranho chegar aos 20 anos com a sensação de que me faltou algo a minha vida toda e só agora associar a essa ausência de um pai, quando nunca precisei dele na minha vida". E eu sempre me senti assim. E hoje consigo ver certas reacções minhas como uma consequência do que me faltou, juntamente com outros factores. Sempre sofri muito com amizades perdidas, pessoas que abandonavam a minha vida. Sempre tive dificuldade em perdoar e, durante muitos anos, quando me magoavam uma vez, estavam marcados no meu coração para sempre.

Sobrevivi a isso. E sobrevivi ao largar esta mágoa constante de perdas e abandonos e ao focar-me nas pessoas que ficam presentes. Ao mesmo tempo, terminei uma licenciatura com ataques de ansiedade que me faziam perder a vontade de sair de casa. Ao mesmo tempo, candidatei-me a um mestrado em Lisboa e aprendi a lidar com a minha ansiedade em metros sobre-lotados e numa cidade onde não conhecia ninguém. Saí da minha zona de conforto e obriguei-me a lutar com a ansiedade, com a sensação que estava a perder uma batalha comigo mesma. Porque era isso que estava a acontecer. Todos os dias brigava com a minha mente e todos os dias perdia. Até ao dia em que ganhei. 



Para quem me está a ler. Todos nós temos os nossos demónios, os nossos esqueletos guardados no armário. Todos nós temos um passado que nos marca o coração. Todos nós sofremos com um comentário triste, uma opinião cruel, um diz-que-disse que nos faz chorar ao final do dia. Todos nós podemos deixar que isso nos consuma ou podemos perdoar, aceitar, guardar. Encaixotar e queimar nos recantos da nossa mente, se quiserem! Mas, se querem que eu seja completamente honesta com vocês, só vos posso dizer isto: não começaria um projecto se não acreditasse nele. E há, mesmo, beleza para além do tamanho que temos. O que eu preciso de fazer é parar de ser a minha principal bully. O que eu preciso é que o mundo não seja feito de estereótipos de beleza onde primeiro estão os padrões aceites na sociedade e só depois a felicidade e auto-estima.

O que eu preciso é que, se forem como eu e estiverem a lutar com os vossos defeitos, o reflexo no vosso espelho, a motivação para o que quer que sejam os vossos objectivos para vocês e para o vosso corpo, que não desistam. Tenham orgulho em vocês. Ao lutarem por esse orgulho e por esse amor, já estão a lutar por vocês também.

8 comments

  1. Amarmo-nos devia ser algo natural, mas é um processo. Demoramos algum tempo (uns mais que outros, é certo) a aceitarmo-nos como somos, porque encontramo-nos sempre um defeito, algo que podia estar melhor. Somos, muitas vezes, o nosso pior inimigo, até olharmos para o espelho e percebermos que a mudança vem de dentro, que não adianta termos 20 pessoas a adorar-nos se nós não gostarmos de nós.
    Tenho a certeza que o teu testemunho vai ajudar muito!

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  2. Pode ser uma excelente forma de passares a amar-te ainda mais, exatamente como és. Parabéns pela iniciativa e boa sorte =)

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  3. Eu adorei este teu texto! Já é sim um motivo de orgulho esses teus 90% de te amares a ti própria e um dia hás-de amar. Identifiquei-me bastante (e para breve sai o meu post :b)! Obrigada pela tua partilha <3

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  4. Muito bom! Comecei a ler o blog agora e estou a gostar mesmo muito. Continua! :)

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  5. Já o disse mais que uma vez, e volto a dizer, que projeto tão bom! Acho que teres feito este relato também é muito bom, pois mostras que está tudo bem em não estarmos completamente à vontade com o nosso corpo, desde que seja um processo de aceitação e não um momento de estagnação nesta fase de não estarmos satisfeitos connosco. Espero, do fundo do meu coração, que, com o tempo, aprendas a gostar ainda mais de ti e que este seja um processo de aceitação e de amor próprio crescente. Mal posso esperar para escrever também a minha contribuição!

    Um beijinho e muito amor,
    Bia do Bookaholic.

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  6. Que projecto tão bonito! O primeiro passo é a percepção do que tu queres querida e esforçares-te por isso :) Força! Estamos juntas! Beijinho

    https://thebrunettetofu.blogspot.pt >> EM BREVE >> http://www.keke.pt

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  7. Simplesmente adoro esta tua iniciativa e vou tentar participar, a sério que vou!
    Espero que consigas amar o teu corpo e orgulhar-te dele. Somos todos projectos em construção e constante melhoria, ou seja, acho que nunca vamos estar 100% satisfeitas com nada, mas temos que aprender a viver em paz com a nossa parte física.
    Deste lado ando a melhorar bastante esse aspecto. :)*

    Joan of July

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  8. É uma questão de treino mental e perseverança, acredita! Também eu já me incomodei imenso com diversos comentários a respeito do meu corpo, e tal como tu e muitas outras pessoas, eu costumava ser a minha inimiga NO.1, mas sabes duma? A partir do momento em que coloquei os pés na terra, comecei a compreender a minha mente e dei o pontapé de saída do aglomerado das minhas inseguranças, as complexidades passaram a ser uma porção muito pequena das minhas preocupações.

    Existem ainda coisas que me deixam agoniada, mas aprendi a relativizar esse tipo de emoções, de modo a não me deixar afogar perante a possibilidade de destruir tudo aquilo que já construí para mim mesma. E digo-te, como leitora, amiga, o que vires em mim neste momento, para que nunca desistas dessa ambição de te poderes abraçar a ti mesma e sorrires na presença desse amor-próprio que tão bem mereces que te palpite no coração!

    Muita força, Soninha! Logo, logo, escreverei mais textos em nome deste projeto, pois quero que o teu grande objetivo se cumpra: chegar a pessoas que se debatam com as suas inseguranças e que, apercebendo-se de que existem pessoas no mundo que as ultrapassaram, se sintam inspiradas! ♥
    Beijinhos,

    LYNE

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